quarta-feira, setembro 14, 2005

Fashion: ouvir "Flock of Seagles" de ceroulas?

Na fila da caixa seis do hipermercado modelo suspende-se por um bocadinho o mundo. Fixo, absorto, a jovem morena que reluz na capa da revista mesmo por cima das batatas fritas-sabor-novidade e dos chapelinhos mickey-recomeço-de-aulas. Sustenho a respiração, travando a comunhão do instante, essa fracção pura em que também ela me olha e me faz caminhar sobre a via quase pisável do perfeito.
O homem barril pagou. Pagou também a dos aros de madrepérola. Avanço metro e meio. Merche Romero fica ainda mais nítida na capa da revista, mais potente, mais devastadora. De modo que o marulhar da mole imensa a esbanjar os últimos trocos de Agosto se converte num terno e distante som de embalo.
Quando o mundo finalmente se detém, um foco de luz rasga a escuridão. Desce dos céus para se centrar em M.. Tudo o mais deixa de existir. É escuridão e só escuridão. É lixía-azul e farinha de mandioca e concentrado de tomate de supermercado invisível. Para mim há só a esfíngica Merche a bailar numa auréola de luz, em fato de banho; a parte de cima franjada, modelo far-west, e em baixo as coequinhas tímidas à face. Merche puxa por elas, pelo seu pundonor, distende o elástico com os polegares num movimento de dentro para fora. Alarga horizontes. E continua a olhar-me de lábios juntos, mas não bem juntos, resta ainda uma fina abertura, um fiozinho de apelo, húmido, um segredo que (vê-se mesmo) pretende sair daquela esfera de luz e desvendar-se só em mim.
Avanço um pouco mais e ao repousar o olhar sobre aquelas coxas deificas dou conta da inscrição, mesmo ao lado: ”Muito fashion: o que deves vestir quando estás a ver discos antigos!”. É então - e só então -, no choque gerado por esse aviso (e também por a septuagenária me ter espetado o carrinho de compras no traseiro) que o mundo me volta a cair nas mãos. Execrável. O mundo mundo. O mundinho!
Dou-me conta – aparte de não conseguir alcançar a expressão “ver discos antigos!” – de que nunca serei suficientemente fashion para M., apesar do investimento recente nuns jeans levis 501 com botões. Não, sou totalmente out of fashion. Sou um quota. Um excluído. Um senhor desprezível. Vomito-me de lamentos enquanto pago. Desanco-me interiormente com insultos dos piores. Um tipo que ouve Flock of Seagles de ceroulas (já me aconteceu) ou com as mesmas calças com que se abalança em Elvis Costello não merece nada! Nada!
Encho-me de raiva enquanto deixo M. na prateleira do supermecado. Outros que a tenham! Malditos sejam! Um dia vou pegar no segundo álbum dos Queen, ponho uma camisola à cava amarela e umas calças de sarja azul-mediterrânico. Depois, rapo do meu single preferido da Suzi 4 e enfio um blusão de cabedal com fechos nos punhos, uma espécie de centopeia metálica de abrir. Reservo o lencinho de seda grená pontilhado de laranja para Art Sullivan (juro que era de um primo meu) e vou curtir Curiosity Killed The Cat de boina basca, t’shirt ajustada, castanha, e ténis “All Star” de cor igual ao cinto. Saberei repescar a alma avant la lettre que desconheço, mas que sei que tenho. Aposto que lá no fundo, bem no fundo, também eu, com um pouco mais de brio, consigo ser muito fashion a ver discos antigos.

quarta-feira, junho 15, 2005

Este mundo.

O sol acabara de nascer, no dia que agora termina, este tinha sido o seu derradeiro sonho.
Para trás, tinha deixado tanta história que narrá-la aqui seria uma tarefa gigantesca e certamente fastidiosa.
Por isso, nesta noite distraíra-se a organizar algumas pequenas recordações, aquelas que falavam na esperança de um mundo novo, em que não existiriam grupos de indivíduos com interesses antagónicos, em que a voz de cada um era ouvida e considerada.
Depois lembrou a importância motivadora das fortes convicções, da reflexão profunda sobre os dias que nos rodeiam, das dedicações generosas, das disputas leais, dos seus defeitos e das suas virtudes, como qualquer outro Homem.
De que sozinho não se é nada, só crescemos em conjunto, que nada existe que valha a pena sem amor.
Ignorou neste momento tanta insipiência, daqueles que falam por falar, que nada explicam ou ouvem, nem querem explicar ou ouvir e articulam como se conhecessem profundamente todos os assuntos, que só têm certezas, censuram a dúvida e encarceram a utopia.
Que vendem a ilusão de felicidade á custa da arrogância e alguma recompensa, material e bem terrena, e às vezes até divina.
Tanta sobrançaria, tanta falta de intelecção, tanta certeza do que é o melhor e o pior para todos nós, que neste entretanto, morre de cinco em cinco segundos, uma criança de fome.
- É o destino senhores, é o destino. Que havemos de fazer.
Talvez só por isso valesse a pena ser um sonhador. Pensar e voltar a cogitar na forma de mudar tudo isto, de viver nesta inquietação permanente e neste profundo gueto das ideias.
Ele próprio, passadas tantas horas, nunca conseguira descobrir como o fazer, porque uma coisa é imaginar, outra é agir de forma justa para todos.
Neste ultimo isolamento, nesta termina reflexão lúcida, sentiu que hoje, como ontem, estaria pronto para recomeçar tudo de novo, criativamente, ao lado da ciência e da arte, ao lado da busca permanente de um mundo preferível e mais equitativo.
Que a vontade de aprender estava intacta, que a diversidade de ideias e opiniões é a única forma de se progredir, nada é eterno e intemporalmente certo.
Que o apreço pela vida humana é um assunto demasiado sério, para despender-mos tempo envolvidos na macabra teia, criada pela alucinação do fútil, distraídos e desconcentrados do dias.
Levantou-se lentamente e aproximou-se de uma velha caixa que guardava com carinho, desde tenra idade.
Abriu-a vagarosamente e verificou que passados tantos anos, ela se encontrava, como sempre suspeitara, escrupulosamente igual. A pequena moeda que ai escondera, apesar de ser sua ou se preferirmos, apesar de ele ser o plutocrata, não lhe tinha produzido qualquer abastança, estava ali quieta e só.
Assim sendo, acordou que tanto ontem como hoje, para se fabricar riqueza, é necessária força de trabalho.
Se será necessário, para se viver neste mundo, tamanhas desigualdades, perseveraria hoje como outrora, com essa dúvida para si.