sexta-feira, outubro 31, 2003

Há dias assim, sabe-se lá porquê.

Paula tinha uma particularidade pouco vulgar, gostava de pensar, para ser mais exacta, como ela dizia, gostava de reflectir, não no sentido filosófico do termo, apreciava observar a vida, saber a razão e tentar compreender os seus porquês.
Somada a esta esquisitice, quando se exprimia ou agia, apesar de extremamente educada com todos, possuía uma frontalidade que muitos tinham dificuldade em suportar.
As suas palavras, a sua forma de pronunciar, era cruelmente directa, falava sempre sobre aquilo que sentia e lhe apetecia, e imagine-se só, sem pensar nas consequências e sem qualquer tipo de constrangimento.
Esta atitude era muitas vezes mal aceite e causadora de alguns embaraços, incompreensões e talvez injustificadas manifestações de desconsideração, normalmente associadas a aspectos que estavam para além da sua erudição e oratória franca.
Certa vez, apercebendo-se que causticava desnecessariamente os seus interlocutores, e que tinha afastado gradualmente alguns que lhe pareciam próximos, decidiu tornar-se menos faladora, ao ponto de, pouco a pouco, quase nada dizer.
Entre tantas peripécias vividas, recordou aquele momento, em que num grupo de amigos, sugeriu que lhe dissessem o que poderia fazer para os tornar um pouco mais felizes, estava disposta a ponderar qualquer realidade ou fantasia, e caso se sentissem constrangidos, podiam mandar mensagens escritas não assinadas, com as respectivas petições. Todos pensaram rapidamente em várias hipóteses, mas ninguém escreveu nada.
Depois, reviveu o dia, em que quis partilhar sua alegria, num concerto de harpa e fagote, a realizar no claustro de uma igreja. Não foi um sucesso participativo, apesar de ninguém conhecer a beleza daqueles sons e as obras musicais que se iriam interpretar.
Mais tarde, teve vontade de debater ilusões escondidas, arranjou um bonito espaço para executarem o número, mas ninguém apareceu. Contudo, todos disseram gostar da ideia, mas infelizmente estavam cheios de compromissos, naquele fim-de-semana, véspera de um feriado.
Finalmente o dia, em que elogiou doces palavras e um lindo olhar. Foi acusada de se atirar descaradamente, a um homem que não era seu.
Apesar da profunda mudança, provocada pelo silêncio actual, lhe ter trazido a paz na convivência, ainda não estava satisfeita, sentia-se amargurada e aprisionada pelo seu comportamento.
Naquela manhã, sabe-se lá porquê, decidiu que tudo mudaria, iria voltar a dizer, a sentir e experimentar novamente a confiança na inteligência dos outros.
De dentro da sua pequena viatura, pensativa, contemplou pausadamente a paisagem circundante, era um dia de Inverno, cinzento, com muito nevoeiro e alguma chuva.
Logo de seguida, baixou por segundos o olhar e sentiu uma tristeza inexplicavelmente profunda, talvez pelo tempo adiado, depois espreitou em frente, o nevoeiro era intenso, cegava a muito poucos metros de distância, e murmurou:
- Aquele camião vem na minha faixa.

sexta-feira, outubro 24, 2003

Café Harmonia no Bairro das Grandes Flores.

Chico dos Bigodes gostava de formas simples, linhas rectilíneas e não apreciava o desalinho geométrico. Por isso, sentia-se feliz no lugar onde vivia.
O Bairro das Grandes Flores era constituído por cinquenta prédios de sete andares, todos iguais e harmonicamente alinhados.
Apesar da imensidão de moradias, por estranho que pareça, nenhum dos seus habitantes, tinha dificuldade em encontrar a sua casa e às vezes não era nada fácil, dadas as semelhanças existentes, entre os vários espaços arquitectónicos.
Esta forma de viver labiríntica e pouco iluminada à noite, assusta normalmente o visitante ocasional, quando não acompanhado por um conhecedor e isso torna o bairro pouco frequentado por estranhos, muito mais atentos e necessariamente observadores.
Chico dos Bigodes gostava disso, destes lugares onde tudo se passa e ninguém repara, onde as pessoas parecem ser todas comportalmente e fisionomicamente iguais, onde quase nunca acontecem imprevistos.
Uma outra característica, de Chico dos Bigodes, era o seu apego à rapaziada, falava com eles horas, participava nas suas brincadeiras e gostava de ouvir os seus desabafos.
Normalmente, depois de anoitecer, sabia-lhe bem repousar os braços, no balcão do Café Harmonia e pagar uns copos à malta nova, demasiado nova para tratar de trabalhar e conseguir alguns rendimentos.
Depois saíam até de madrugada, com a vista turvada pelo álcool e o alinho do corpo já deslocado, como que conduzidos por uma força exterior, à procura de outra animação, nos lugares mais chiques da cidade.
Pois bem, foi numa dessas noites, que aconteceu algo de estranho e que nunca mais foi esquecido, no Bairro das Grandes Flores.
Nesse mesmo dia, pela tarde, Otília pediu ao filho, em mais um acto de mãe demasiado solitária e frustrada no carinho, que nunca tinha tido a possibilidade de partilhar, com o pai da criança, suas angústias e alegrias, de ver crescer o agora rapaz de 13 anos, para que este convidasse os seus amigos mais chegados a almoçar em sua casa, no dia seguinte.
Otília, era uma mulher alta e de longo cabelo preto, olhos verdes e pele branca, não fosse o descuido que tinha pelas mãos e pele do rosto, podia-se dizer que era uma mulher muito bonita e suspeitar-se que em tempos passados viveria sem as suas dificuldades e privações actuais.
Nessa noite, a altas horas, desceu do 4º Andar, depois de ter trancado suavemente a porta F e saiu pelo o número 23, em passo decidido e sem arrependimento.
Atravessou a estrada, dirigiu-se ao número 48, subiu ao 4º andar, procurou a porta F, tocou à campainha e assim que a porta abriu, disparou seis tiros no corpo de Chico dos Bigodes, depois com uma frieza arrepiante, abriu-lhe o peito com um canivete suíço muito afiado e arrancou, num gesto brusco, o coração da sua vítima.
Introduziu-o com algum cuidado na mala que trazia a tiracolo, embrulhado em duas páginas de anúncios jornalísticos de emprego fácil e bem remunerado, percorrendo de seguida o caminho anterior, mas desta feita de forma inversa à relatada anteriormente.
Chegada a casa partiu o coração em pequenos pedaços, temperou-o com um punhado de sal grosso, duas pitadas de pimenta branca, uma folha de louro, um raminho de salsa picada, três alhos lascados e um copo de vinho branco, deixando a marinar até ao dia seguinte.
Já estava a louça lavada e a cozinha arrumada, do almoço servido com aprumo e bom gosto, ao seu filho e seus quatro amigos mais chegados, quando a policia entrou, Otília ofereceu-lhes um café fresquinho e saiu serena, sem qualquer tipo de resistência ou interrogações, acompanhada pelos senhores agentes, de cabeça levantada e sem nunca olhar para trás.
Em Custoias, na ala 4, cela F, secção 23, onde agora se sente mais aliviada e quase de bem com o mundo, recorda o filho, as suas noites de silêncio e a sua fúria interior, dirigida em voz alta aos conselhos da mãe.
E sente a sua impotência, por imaginá-lo a viver só e por sua conta, ou na casa de algum dos senhores que Chico dos Bigodes a seu tempo lhe indicou a morada, nas suas constantes visitas ao centro da cidade.
- Se eu pudesse mudar este mundo, murmurou.
Saiu da cela para jantar, passava pouco das oito horas, observou a televisão, onde um senhor famoso, de fato escuro, garantia nada ter a ver com essas histórias que por aí andam inventando, sem credibilidade e que já lhe aborrecia ver o seu nome, envolvido com o nome de jovens menores.
- Onde estão os pais dessas crianças, para lhes darem alguma educação e uns puxões de orelhas, enfim, para cuidarem neles e não os deixarem ao abandono. Terminou afirmando, o tal senhor famoso.
No silêncio do refeitório, Otília comendo coração frito com arroz branco e salada de alface, numa delicadeza às vezes comovente, jurou aos presentes, que o senhor da televisão era o pai de seu filho.
Mas nada disse sobre o verdadeiro nome da criança de 13 anos, de cara tapada e voz distorcida e que por um descuido do homem da câmara de filmar, ela conseguiu reconhecer, acusando e maldizendo, o homem de fato escuro.

sexta-feira, outubro 17, 2003

Jaquim não conseguia dormir.

Parecia-lhe estranho, eram quase dez horas e não conseguia dormir.
Dantes jantava assim que anoitecia e a esta hora já dormia profundamente.
João Joaquim dos Santos gostava de se levantar cedo, ouvir o canto nas altas arvores e observar o pasto que lhe rodeavam e que agora os seus braços, já não conseguiam impedir, no seu frenético avanço.
Depois, já desperto, por um púcaro de muito café e pouquíssimo leite, refugiava-se na húmida barraca, mesmo ao lado da sua velha e pequena casa, arrumando e desarrumando as suas recordações e por ali ficava horas em silêncio.
Lembrava a sua juventude, os tempos em que corria pelos campos tentado enganar algum pássaro mais atrevido, a escola que agora reconhece ser útil e que ele nunca pôde frequentar, o dia em que conheceu Maria nas festas da Nossa Senhora da Conceição, do dia em que construíram a sua casa, companheira de tantas horas e tantas alegrias, mas também de algumas pequenas tristezas.
Sim, pequenas tristezas, pensou Jaquim, nome com que carinhosamente Maria lhe tratava, ou pelo menos o prenunciava, um homem como eu que dá valor às coisas simples, não tem por hábito ter grandes tristezas.
Neste dia que agora termina, de volta ao sossego e à sua incapacidade em adormecer, Jaquim pensou na tarde de dois de Agosto e na tarde agora finda, naquela por ter sentido pela primeira vez medo, nesta por senti-lo novamente.
E recorda a sua Maria. - Jaquim fala com o senhor do Jornal como deve ser e diz-lhe como estamos contentes.

“João Joaquim dos Santos, de 70 anos, definia ontem a alegria de ver a nova casa em acabamentos. “Estou ‘desertinho’ para vir para aqui como um cego está ‘deserto’ para ver”, confessa, depois de maldizer o fogo, “pior do que um gatuno”, que lhe roubou tudo o que tinha. “Nem um garfo, nem uma faca para cortar o pão. Fiquei só com a roupa do corpo”.
A obra está avaliada em 45 mil euros, pagos pelo Ministério da Segurança Social (80 por cento) e pelo Banco Espírito Santo. Há uma cozinha, uma sala, uma casa-de-banho, um quarto e um anexo para a lareira, numa área total de 67 metros quadrados que é o suficiente para João Joaquim dos Santos e a mulher. “O que está ali é bom e bem feito. Vale dez vezes mais do que a minha casa valia”, explica o homem. “ (Jornal Correio da Manhã).

João Joaquim dos Santos sabe a que cegos se referia, no deserto onde agora vive e pensa que o que se sente é dificil de quantificar, logo impossivel de multiplicar por dez.
Naquela cama que cada vez mais lhe parecia ser feita para outros corpos, sentiu vontade de chorar até adormecer, coisa que não tinha conseguido fazer no dia dois de Agosto, rodeado pelas chamas.

sexta-feira, outubro 10, 2003

Será que isto é importante ?

Na azáfama dos dias das sociedades modernas, na qual incluo os blogs, parece-me que um (ou uma) por semana já não é nada mau.

Um amigo meu, Professor de Filosofia, de longa data, foi colocado numa Escola Básica 2/3 e agora terminada a fase dos concursos contínua aí colocado, a receber a seu digno salário.
Parece que até agora o Ministério de Educação não arranjou solução para o seu “problema” e possivelmente, apesar dos seus reiterados esforços, parece que até ao fim deste ano lectivo, a sua situação vai manter-se inalterada.
Talvez o leitor menos conhecedor deste assunto, esteja neste momento a interrogar-se sobre este texto, pensando no que vai aqui de interessante, pois então passo a explicar.
É que as Escolas Básicas 2/3 não têm lugares para Professores Filosofia, portanto este meu amigo, que não tem culpa dos erros do Ministério, não tem nada para fazer nesta Escola nem em qualquer outra Escola Básica 2/3.
E dou por mim a pensar, quando a colocação de uma aluna na Universidade, embora de forma reprovável e condenável, vem afastar dois Ministros e vários Secretários de Estado deste Governo e a não colocação de milhares de Professores nada provoca no Ministério da Educação, será que isto é importante?

quinta-feira, outubro 02, 2003

Conhecimento actuante.

Se os teóricos das novas sociedades de informação, afirmam que a informação é fundamental ao desenvolvimento das nações e que é o principal factor gerador de conhecimento.
Poder-se-á pressupor que os indivíduos que melhor dominam a dita “informação” serão os indivíduos mais conhecedores?
È claro que a informação deverá ser relevante para o objecto em estudo e possuir um conjunto de características que a definem como informação de qualidade.
Mas quem decide o que é boa e má informação?
Se a promoção da informação feita pelos órgãos de comunicação social não produz o “conhecimento actuante” e as escolas também estão longe de atingir em pleno esse objectivo, a quem caberá essa função?
Quem se dirigirá a nós, pobres criaturas, iluminando-nos pelos caminhos desse conhecimento e nos ensine a alegria de aprender bem.
Aliás eu nunca percebi, por exemplo, porque dizem que ler, ir ao teatro, ouvir música clássica e essas coisas, faz bem, mas se eu não gosto de ler, não gosto de teatro, não gosto de música clássica, faz-me bem a quê! Se isso não me provoca alegria nenhuma e até me aborrece.
Por isso quando vejo alguns senhores, talvez amigos daqueles que ignoraram os milhões que se manifestaram contra o conflito no Iraque, afirmarem-se contra o lixo massificador televisivo, jornalístico, pensando-se capazes de decidir, caso pudessem, o que é melhor ou pior para nós, tendo pena daquilo que nós não conhecemos, dá-me vontade de rir e ir ver uma boa novela, um bom jogo de bola, um bom Big Bhoter ou até os Ídolos.

quarta-feira, outubro 01, 2003

Os prós e os contras das sociedades.

Reflectindo sobre as constantes preocupações e os dias que a nossa sociedade vem enfrentando, recordei uma pequena história que observei no filme de Fernando León de Aranoa, com o título: “Às segundas ao sol”.
Na monotonia dos dias vividos por um grupo de desempregados do norte de Espanha, um dos quais de nacionalidade Russa, este personagem relatou a seguinte história.
Dois velhos Russos conversavam, depois da queda do muro de Berlim e do fim da União Soviética.
- Sabes o que me entristece, é saber que tudo aquilo que eles falavam sobre o comunismo era mentira.
- A mim, sabes o que me entristece mais, é saber que tudo aquilo que eles falavam do capitalismo é verdade.