sábado, novembro 29, 2003

O Futebolista.

Parecia dominado por uma força divina quando entrou em campo, faltavam 15 minutos para o jogo acabar.
Correu, rastejou, cortou de cabeça, enviou para canto, enfim, ninguém passou por ele.
Apesar de esta ser a vigésima jornada e nunca ter jogado, naquele momento parecia ser um titular indiscutível.
Infelizmente para ele, em dezassete anos de treinos dedicados, nunca se tinha conseguido afirmar, naquele magnífico plantel.
Mas isso nunca o desanimou, não obstante em muitas épocas, a sua situação de titular, não ter ultrapassado, no total do campeonato, as duas dezenas de minutos.
Em toda a vida sonhou ser jogador profissional de futebol e por este facto destinou todo o seu empenho e dedicação, era um sonho possível que não queria prescindir facilmente.
Foi de tal forma intensa esta sua crença que não chegou a completar o nono ano de escolaridade, tendo-se ficado pelo suficiente para puder ler um jornal desportivo.
Sempre pensou, que o que interessava era treinar bem, para que no dia em que algum observador de um grande clube o viesse buscar, estivesse preparado.
O Futebol Clube os Marinheiros da Serra era o seu clube de sempre, militava numa divisão regional e dificilmente poderia ambicionar outros vôos, dados os parcos recursos financeiros que possuía.
Na época em curso, o seu percurso, não era muito diferente de épocas anteriores, vinte jornadas, zero pontos.
Mas isso pouco importava, tinha chegado a sua oportunidade e iria mostrar o seu real valor, neste quarto de hora até ao apito final.
O “Mister”, vendo que o último homem da defesa tinha-se lesionado gravemente, decidiu mandá-lo entrar.
- Vai rapaz, devolve-me consistência àquela defesa.
E devolveu, o esférico nunca se aproximou da sua baliza enquanto esteve em campo, diga-se no entanto a verdade, também não houve tempo para se aproximar da dos outros.
Saiu fresco, pouco tempo depois de ter entrado, imaginando que era o melhor jogador do mundo, apesar dos seus trinta e quatro anos já lhe pesarem nas pernas.
Sentiu que depois daquela exibição, a data de ingressar num grande clube, onde teria bons carros e muitas namoradas estava certamente a chegar.
Imaginou a cara dos seus colegas de trabalho da oficina auto, quando ele os viesse visitar e a inveja que iriam sentir.
Viu-se a dar entrevistas, na televisão, ao lado dos senhores jornalistas que tanto admirava, pelos seus doutos conhecimentos sobre esta modalidade.
Concebeu-se a comprar uma casa enorme, com piscina, onde levaria toda a família a ter uma vida magnífica.
Imaginou-se no Euro 2004 a jogar na seleção e a levantar a taça.
Mas é evidente que as vinte pessoas da terra que assistiam aquela derrota por oito a zero, não reparam na sua magnífica exibição, o que interessava era marcar, nem que fosse um maldito golinho, perder por oito ou por dez, para eles, era naquele momento a mesma coisa.

sexta-feira, novembro 21, 2003

Inconformada inevitabilidade.

Curiosamente já imaginava o que estava para vir, era sempre a mesma coisa, mas fazia como se nada estivesse a aguardar.
O tempo, mais uma vez, seria o responsável e confirmador da razão ou não da sua inconformada inevitabilidade.
Fernando habitou-se desde cedo a despedidas prematuras, a separações que não desejava, a imaginar regressos precoces, a arquitectar o futuro, a almejar que o tempo parasse ou a ambicionar que passa-se rapidamente.
E assim foi vivendo ansioso, nervoso, amargo, pouco ambicioso e desconcentrado no seu dia a dia, mas apesar de tudo bem desperto.
Nas pausas das suas fantasias, vivia agarrado a esperanças findas, depois sem que nada fizesse para que sucede-se, algo imprevisto acontecia, novos alentos renasciam e o ciclo voltava-se a repetir.
Foi num destes períodos de ir vivendo e viver, de estar ali e sentir vontade de ali estar que conheceu Rosália.
Curiosamente nada fazia crer que naquela noite ficasse mais de uma hora naquele lugar, mas Rosália aproximou-se e tocou-lhe no seu ponto fraco, olhou para ele com um sorriso aberto e transparente que interpretou como alguém consciente do presente e com esperança no futuro.
Depois falou-lhe abertamente, muitas vezes com humor, segura das suas palavras, sobre a necessidade de se construir momentos de aguerrida convicção, de reflexões profundas e de liberdade, de instantes onde o tempo e o lugar não seriam o factor coordenador dos ápices vividos, do afecto com afecto.
Por tão pouco Fernando sentiu-se renascido e apaixonado, interiormente alegre e com uma vontade enorme de perpetuar aquele momento, talvez real, talvez por si imaginado ou exageradamente fantasiado.
Falou do amor, da arte que conhecia, da verdade e do ser verdadeiro.
Falou de si, daquilo que lhe comovia e lhe alegrava, do que tão íntimo, nem sempre tinha coragem de partilhar e não falou mais porque temeu ser demasiado personalista.
Depois riram-se, numa estranha sintonia interior, das amargas coincidências sobre a visão dos dias actuais, dos falsos problemas que nos inventam e dos verdadeiros que nos escondem.
Da obrigação de sermos assim, todos assim, socialmente regulados e ambiciosamente vigiados, sem mundos nem fundos.
Parecia que se conheciam desde sempre, que tinham partilhado fortes cumplicidades e intimidades intensas, tanto nas horas felizes, como naquelas que lhes deixavam ainda hoje alguma amargura.
No canto da sala o enorme relógio teimava em prosseguir seu metódico caminho, o dono deste lugar sentia-se cansado de muitas horas seguidas de trabalho.
Aproximou-se e de forma simpática, avisou que eram horas de partir.
Depois daquele momento o que teriam para oferecer um ao outro, o que faria da sua afinidade algo de especial, por quanto tempo poderiam esconder-se numa caixa de cimento construída só para os dois.
Havia ainda tanto para alcançar, tanto para encontrar, tanto para criar que nada poderia evitar aquele adeus.
Despediram-se, sabendo que ninguém é dono do futuro e cada um seguiu para seu lado, Fernando para a sua pequena aldeia palestiniana, Rosália para o seu colonato judaico.

sexta-feira, novembro 14, 2003

Do Alentejo a Lisboa.

Está frio ou calor, nunca se sabe bem, com esta dor em cima, provocada não sei se por gripe, preguiça genuína ou cansaço.
Foi com este espírito que Manuela começou a escrever, tinha de contar algo importantíssimo que lhe tinha acontecido à vinte anos e que só agora queria partilhar com o mundo ou pelo menos com o seu mundo.
Manuela era uma empresária de sucesso, tinha quarenta anos, amava o seu marido e os seus dois filhos.
Vivia numa boa casa, tinha um bom carro, podia-se dizer que não lhe faltava nada e que aparentava ser feliz.
Neste dia regressou a casa mais cedo que o habitual, eram aproximadamente sete horas da tarde, sentia uma vontade enorme de ficar sozinha e em silêncio.
Sentou-se e começou a descrever, a razão do seu comportamento, da sua tristeza quando o polícia a agarrou, faz hoje precisamente vinte anos.
Falou do desespero na cela, da solidão da cidade e na saudade do seu Alentejo.
Naquele tempo, estava à dois anos em Lisboa e nada tinha conseguido, os sonhos que deixou na sua casa de Beja não passavam de ilusões e esperanças perdidas, a vida não era como pensava e as pessoas também não.
Do desespero passou pela ausência de auto-estima, da droga à prostituição o caminho foi breve, da vontade de partir à vergonha de chegar, existe um rio imenso quase intransponível.
Ligou o rádio e ouviu com atenção a música que passava e que nunca mais esqueceu.

Geme o restolho triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário

geme o restolho preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem cor e sem vontade

geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda

mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
Pra receber daquilo que aumenta o coração

Mafalda Veiga
PÁSSAROS DO SUL
Restolho


Quando a ultima nota suou, com os olhos rasos de água, levantou-se do sofá e atirou-se à sua cama, ainda por fazer.
Talvez amanhã o dia me acorde com um sorriso, uma nova confiança no futuro e com forças para fazer renascer sonhos antigos e recordações de criança.
E na verdade, no dia seguinte assim aconteceu, recebeu um telefonema que mudaria a sua vida para sempre.

sexta-feira, novembro 07, 2003

Feiras Populares.

Todos nós sabemos que a Feira de Todos os Santos, tem sua presença assídua, três dias por ano, na nossa localidade.
O que talvez poucos saibam é o porquê destes três dias e não de dois ou quatro.
A razão deste trio, foi-me explicada pormenorizadamente pelo Tobias, admirador deste evento anual, desde que tem memória e possuidor de fracos recursos para ali investir despreocupadamente, como seria sua vontade.
O primeiro dia é destinado ao estudo da forma e à memorização genérica das dinâmicas dos espaços. Sem qualquer investimento monetário.
O segundo dia é dedicado à investigação pormenorizada dos lugares e à tomada de decisões. Também, sem qualquer investida financeira.
O terceiro é o derradeiro dia, o dia de todas as esperanças e sonhos, aguardados impacientemente, durante todo o ano. É neste dia que se liberta todas as nossas poupanças.
Tobias respeita e acredita escrupulosamente nesta teoria.
Vestiu a sua melhor farpela, repetida durante estes três dias e lá foi em passo acelerado, coberto de ansiedade e com pavor ao fracasso.
A primeira volta ao recinto é talvez a mais importante, é aí que calmamente nos apercebemos da organização de todos os divertimentos e restantes barracas.
Fixada a sua genérica disposição, efectua-se uma segunda, muitas vezes uma terceira e quarta volta ao certame, desta feita mais atentos ao pormenor.
Nesta fase é importantíssimo não oferecer a mínima pista, sobre o alvo do nosso investimento, não arriscando competidores desnecessários.
A verba de cinco euros, libertada para este efeito, obrigava mais uma vez, a ser extremamente disciplinado e rigoroso nas suas análises.
Lembre-se que em caso de fracasso, não existe uma segunda oportunidade.
Este ano, entre tantas corres, luzes e barulhos agradáveis, teve alguma dificuldade em se decidir, mas o coração falou mais alto, seria novamente a pista de carros de choque.
Decidido o objectivo e chegado o segundo dia, é posicionarmo-nos no alvo estratégica e habilidosamente.
Nesta basilar fase, as técnicas que os felinos utilizam para vigiar suas futuras prezas, transportam-nos verdadeiros ensinamentos.
Existem algumas características, importantes a reter, para se descobrir sem imperfeição, qual é a melhor viatura em jogo.
A velocidade ser superior à das outras, a constância de avarias nos percursos ser nula e a mobilidade provocada pelo volante, mostrar claramente que dificilmente ficaríamos presos num aglomerado de carros.
Situação extremamente desagradável, para não lhe chamar outra coisa, pois o tempo aqui não pára e não perdoa ignorâncias de principiante.
Outro factor importante, é equacionar as horas e os momentos em que as caras mais bonitas da urbe rodeiam a pista e rezar para que no dia seguinte a constância do fenómeno se repita.
Sabendo contudo que esses horários, multiplicam o interesse do evento, dificultando muitíssimo o êxito da nossa tarefa.
A solução óptima para este problema, como podemos facilmente observar, envolve muitas incógnitas e diferentes variáveis.
Se equacionarmos entre quarenta e sessenta viaturas, distribuídas por duas ou três pistas, num número imenso de minutos, com fluxos de afluência extremamente diversificados, percebemos facilmente a que nos referimos
Uma tarde e uma noite de trabalho de observação e cálculo intenso, esgota facilmente, o segundo dia.
Eram vinte e três horas e trinta e quatro minutos, quando o veredicto foi lançado, carro 33, pista Rali Algarve, entre as três e as cinco horas da tarde.
O Terceiro dia é o dia mais esperado, é o dia do tudo ou nada, do agora ou só para o ano.
Felizmente o tempo ajudou e o 33 estava a circular sem problemas, coisa que nem sempre acontece, obrigando a reformular os cálculos do dia anterior, normalmente sem tempo para o fazer e envolto por uma infinita desilusão.
Tobias estava ansioso, duas horas à espera e o 33 continuava ocupado.
- Ora, ora, o que eu sei, outros também sabem!
A mão continuava religiosamente fechada, lá dentro cinco fichas suadas de tanto esperar, de repente, quase que milagrosamente, o carro ficou vazio.
Correu com toda a velocidade e pulou para dentro da viatura, tinha conseguido.
Esperou emocionado mas com aprumo e serenidade, a ordem de partida, cinco minutos de infinita felicidade, infelizmente só quem lá anda dentro é que pode avaliar.
Pezinho de fora, em cima da borracha e foi vê-lo a contornar a tabela sempre de marcha-atrás, porrada aqui porrada ali, a sorrir e a conquistar, uma vez por ano, sentia-se realmente afortunado.
- Haverá melhor lugar e tempo que este no mundo?