sexta-feira, dezembro 26, 2003

Bom ano.

Ora bem, o 2003 (ano onde alguns de nós nos iniciamos nesta coisa dos blogs) vai-se despedir, aí vem o 2004, para todos os votos de um ano onde as esperanças e os desejos sejam uma realidade concretizada.


Nestas épocas atípicas, torna-se mais difícil manter a encantadora rotina, que nos provoca dias sem surpresas e sobressaltos.
A formosa manhã, tarde e noite sempre igual, fazem-nos passar o tempo de forma tranquila, deitados ao sol ou esfregando-nos na terra molhada, muitas vezes devorando algum osso já previamente saboreado.
Todos sabemos ser animais de hábitos e costumes rotineiros que se moldam segundo a nossa domesticada existência, numa realidade que nos projectam e que muitas vezes quase acreditamos ser uma inevitabilidade.
Se a necessidade de mudança for sinónimo de insatisfação, certamente o desejo de permanência é sinónimo de satisfação e por tanto por aqui vou permanecendo, até ver.
Pensando puder continuar a partilhar com outros a sua singular forma de expressão que me faz entreter quase diariamente e pela qual agradeço as linhas que vão repartindo (seguramente sabem a quem me refiro) e as “visitas” que me têm feito.
Certamente já repararam que hoje a personagem da história é “O Cão do Guedes” que não existe nem sentido nem espírito para normalizar o habitual comportamento deste lugar, que haverá mais tempos e tempo para o fazer, na normalidade costumeira dos dias.
Na hora em que os Homens do canil, agora de férias, voltarem para nos tentar apanhar no seu laço.
Um grande abraço, amigos.

sexta-feira, dezembro 19, 2003

Ora, ora o São Nicolau.

Estas luzes, amplificadas nesta época festiva, tornam Júlia uma pessoa sisuda.
Júlia recorda nesta época, mais do que habitualmente, a sua infância, onde este tempo era o seu preferido, uma quadra de alegria, um período onde se sentia feliz.
Mas a idade foi passando e sem pedir autorização modificou os seus olhos juvenis e inocentes.
Apesar de ter lido num Dicionário que sisudo é sinónimo de sensato, característica que aprecia, muitas vezes chegou a considerar os benefícios da insensatez, como um excelente bálsamo para a felicidade e o amor que todos buscamos.
Mas cedo verificou que essa felicidade e esse amor, podem ser um assunto, muito mais sério que a simples inclusão do prefixo in na palavra sensatez.
Considerou, por assim meditar que o segredo do seu infortúnio estava nos encontros e desencontros da vida, provavelmente na sua desmotivada atitude perante as pequenas adversidades.
A noite estava fria, aconchegou-se novamente no sofá e continuou a desfolhar aquela revista, repleta de homens bonitos, mostrando roupas, com as tendências da próxima estação.
E sentiu alguma frustração, talvez por timidez, deslealdade, cobardia ou vontade de manter anónimo este seu sentimento íntimo e profundo, calou sempre e em variadas oportunidades que teve, a enorme vontade de o proferir:
-Imagino-te sendo como queria que fosses e por isso, amo-te.
Mesmo que nunca o tenha mostrado, mesmo que em perpétuo silêncio, mesmo que para ele isso pouco importasse ou não fizesse diferença nenhuma, devia ter dito, mas não disse, nunca disse.
Talvez agora, neste instante, estivesse contemplando impaciente a porta da sua casa, à espera da sua entrada em breve, do seu forte abraço, da sua alegria, da sua agradável companhia, do seu amor partilhado.
Mas não, mergulhando os olhos angustiados e solitários pela sala, centrou-se na maldita meia, de tamanho exageradamente ridículo, pendurada na chaminé.
E continuou pacientemente, aguardando esse Nicolau de 120 kg, de longa barba branca e roupa vermelha desusada que conheceu pela televisão, imagine-se só, montado num trenó puxado por renas e que nunca considerou o seu protótipo de beleza, nem o seu sonho, mesmo que imaginado, de felicidade.

sexta-feira, dezembro 12, 2003

Os enganos acontecem.

Gervásio de tão apaixonado não conseguia esperar mais pelo dia de Natal.
Vendo o movimento que rodeava a loja dos trezentos, não hesitou em entrar e comprar um presente para a sua querida namorada.
O que as lojas dos trezentos têm de bom, além claro do preço imbatível, é a verdadeira variedade de produtos que possibilita encontrar facilmente algo com que nos identificamos.
Gervásio comprou um livro bonito que já tinha lido, com uma boa capa, descrevendo um amor forte e uma linda caixinha de bombons, depois, concentrado nas palavras certas, escreveu um amoroso bilhete, para juntar ao presente, devidamente embrulhado.
Só que na hora de lhe entregar o presente, a simpática balconista, talvez pelo número limitado de padrões, nas folhas de papel de embrulho e a constante interpelação dos fregueses, sobre os preços dos variados artigos em exposição, trocou o embrulho de Gervásio com o de outro cliente, tendo juntado, o já citado bilhete, num pacote contendo uma garrafa de Brandi e um conjunto de duas latas de enchovas de sardinha em óleo vegetal com piri-piri.
Gervásio demasiado emocionado com a mensagem que acabara de escrever e só pensando em ser romântico, nem deu pela troca, olhou ao relógio, pagou e apresou-se para chegar ao correio, onde enviou carinhosamente o embrulho.
Mais tarde, perto do natal, saberia pessoalmente a reacção da sua amada, a este bonito gesto de amor.

Meu amor.
Sei que ainda não é dia de Natal, mas ao passar por esta bonita loja resolvi comprar-te um presente.
Sei que vais gostar e que se não tiveres muito sono talvez sejas capaz de devorá-lo do princípio ao fim numa só noite.
Sei que amas as histórias fortes e essa é sem dúvida das mais fortes que alguma vez me passou pela mão, trouxe-me as lágrimas aos olhos, fez-me sentir um nó na garganta e ás vezes amargos de boca.
Depois, se ficares emocionada, podes aquecer o teu coração, saboreando, um a um os paladares e o admirável odor dessa verdadeira maravilha, acondicionada a rigor, feita à custa da natureza e do engenho humano.
Ah! Como gostaria de partilhar o sabor dos teus lábios, depois de os terminares e de mastigares cuidadosamente e pausadamente.
Todos nós sabemos, embora muitas vezes não o digamos que estas pequenas lembranças são a prova do nosso amor e de que nos conhecemos tão profundamente um ao outro.
Com muito amor e muitos beijos.
Gervásio.

sexta-feira, dezembro 05, 2003

A Paz voltou.

A situação antes de eles chegarem era demasiado calma, ao ponto de muitos afirmarem-se vítimas da doença da monotonia e do aborrecimento.
Contudo nenhum iria supor que a mudança, no seu demasiado sereno dia-a-dia, lhes iria trazer tantas complicações.
Neste lugar todos se conheciam e isso obrigava-os a ter um comportamento cortês e uma relação convenientemente amigável.
Além deste conhecimento mais ou menos profundo, todos tinham uma característica física comum que os identificava fortemente, eram todos coxos.
Esta particularidade obrigou a que os políticos da terra adequassem as infra-estruturas ao lugar onde viviam.
O pavimento das ruas era acentuadamente inclinado, umas vezes para a direita outras vezes para a esquerda, consoante a deficiência do governante, organizador da obra pública.
Esta irregularidade no piso provocava um andar ligeiro e sem qualquer desequilíbrio aos seus habitantes, pelo menos nas ruas construídas de acordo com a sua particularidade fisionómica.
Outra característica, era a admiração que tinham pelos degraus, existiam paragens de autocarro em degrau, salas de espera em degrau, corredores de estabelecimentos comerciais em degrau, passeios públicos em degrau e até nas bibliotecas, museus e igrejas eram adaptados os pisos para que dispusessem desta regularidade arquitectónica.
Porém a calma dos seus habitantes estava quase a chegar ao fim.
Naquela tarde, não se sabe vindos de onde, chegou à localidade um grupo de sujeitos que pela sua forma de andar nas ruas, estar nas paragens de autocarro, salas de espera, corredores de estabelecimentos comerciais, passeios públicos, bibliotecas, museus e igrejas pareciam mal se conseguir equilibrar.
Moviam-se descoordenadamente e estavam quase sempre a cair.
Esta forma trôpega de estar em publico, em vez de motivar o auxílio, produzia a desconfiança e o medo.
Rapidamente foram descriminados, estiveram sujeitos à piada pública e chegaram-se a organizar reuniões secretas, onde se engendraram formas para se verem livres daqueles estranhos indivíduos.
Os argumentos apresentados eram geralmente muito semelhantes e pouco diversificados.
Desde a degradação da imagem pública, até à falta de simpatia, tudo ou quase tudo foi invocado.
E assim afastaram-se deliberadamente, talvez por medo, talvez por falta de diálogo.
Por outro lado, sentindo a incompreensão daquela população, pela sua diferença, experimentando que não adiantava tentar lhes chegar perto, nem que fosse para falar-lhes um pouco dos seus motivos, começaram a tornar-se violentos e pouco sociais.
Este comportamento, tornou inseguras as noites e às vezes até os dias, daquele, até então, pacato lugar.
Foi de tal forma tumultuoso o seu comportamento que as autoridades estavam em polvorosa, invejando o momento da próxima delinquência, para que pudessem correr dali definitivamente com aqueles malfeitores.
E não foi preciso esperar muito, não se sabe muito bem porquê, numa noite de chuva, os ditos sujeitos foram apanhados em flagrante delito.
Diz quem viu, que com os olhos raiados de sangue, destruíam com uma marreta, furiosamente, os degraus de uma paragem de autocarro e preparavam-se para fazer o mesmo nas bibliotecas, museus e igrejas.
O castigo para tão odioso crime, foi unânime, expulsão imediata daquele maravilhoso lugar.
Os ditos sujeitos sentiram-se injustiçados, mas aceitaram com aparente resignação a decisão popular.
Hoje, passado algum tempo, a paz voltou.
Nas ruas, passeando nos degraus, o comandante da milícia local que os acompanhou até à fronteira da urbe, afirma em alto e bom som, com justificado orgulho.
- Até pareciam que tinham ganho o equilíbrio e a postura rectilínea, assim que puseram o pé fora da nossa terra.