sexta-feira, janeiro 30, 2004

Amor inaceitável.

Estávamos no Inverno e os dias, como habitualmente acontecia naquela estação, estavam frios e chuvosos.
Por detrás daquela colina, que se observava facilmente do cimo deste monte, situava-se um lugar de muito difícil acesso, chamado Acaso.
Neste lugar, habitado por cento e vinte pessoas, a vida corria ao sabor do tempo, umas vezes mais doce outras vezes mais amarga.
Na terceira casa do lado direito, para quem expõe as costas ao nascer do sol, da única rua existente, vivia Eugénia.
Eugénia tinha completado naquele mês, vinte e nove anos e vivia diariamente atormentada por um profundo amor que não desejava e que embora muito quisesse, não conseguia arrancar do seu pensamento.
Em muitas ocasiões, tentou entender aquele terrível sentimento, mas apesar do gigantesco esforço intelectual, não lhe conseguiu compor uma única explicação, para tal apego romanesco.
Nestes lugares, pouco habitados e muito raramente visitados por forasteiros, é extremamente difícil esconder um amor, especialmente se este for verdadeiro, todos se conhecem e qualquer comportamento considerado menos usual é facilmente identificado e vítima de grandes conjecturas.
Eugénia sabia disso, e também por isso, tinha perdido o tempo do amor romanceado, o sonho de caminhadas sorridentes pelos campos verdejantes, a esperança de acordar ao seu lado, sem pressa, de esperar sem desespero, de passear na sua rua, uma vez que fosse, abraçada no afecto.
Desde aquela fatídica tarde, já lá vão dez longos anos, em que os seus pais morreram, Eugénia sobrevivia sozinha, almoçava sozinha, jantava sozinha e acordava sozinha.
Habitou-se contudo a assim viver e não tendo outro remédio, outra alternativa, foi consentido que o tempo passa-se e o seu sentimento perdurasse intacto.
Por isso, em muitas noites, no seu mundo de silêncio, desesperou e chorou solitária.
Apesar deste sofrimento mudo, nunca deixou de caminhar sorridente, de estar pronta a desinteressadamente ajudar velhos e novos, pobres e só não ajudava ricos, porque neste lugar não existia nenhum.
Esta sua atitude deu-lhe a admiração de todos, o respeito e a simpatia, a que ela sempre respondeu com uma tocante ternura sincera.
Por isso, não foi de estranhar, quando caiu na cama doente, com uma febre alta a delirar em vozes e comportamentos estranhos, que todos os habitantes de Acaso tenham sentido uma enorme comoção.
Nesses dias, naquele lugar, todos se sentiram um pouco enfermos.
Mais tarde, quando finalmente recuperou deste estado débil, foi alvo das maiores festividades e discursos sobre a sua insubstituível importância, na vida daquela gente e daquele lugar.
Mas quando por descuido ingénuo, motivado pelo recente delírio febril, um dos vizinhos, talvez menos bem intencionado, se apercebeu e deu a conhecer o corpo do seu amor verdadeiro, a amnésia, sobre o seu passado exemplar, invadiu toda a população.
A partir dessa hora, a vida para ela, tornou-se quase insuportável, pela primeira vez a dor do escárnio e do intolerável desdém apoderou-se do seu corpo.
Na sua modesta sala olhou pela janela, na casa em frente, observou Carlos, sentado à mesa da cozinha, com a sua criança ao colo, mais à frente, estava Maria preparando uma rica refeição, que certamente iriam partilhar confortavelmente, logo de seguida.
Virou o olhar sem qualquer auto-estima e sentou-se infernalmente amargurada, insuportavelmente culpada e inconsoladamente desolada, por simplesmente amar.

sexta-feira, janeiro 23, 2004

O lugar onde se nasce.

Cada dia que passava mais vontade sentia em partir.
Tinha planeado para si um projecto, e imaginando não o ser capaz de cumprir, sentia-se muito desiludido.
Na verdade, não tinha a certeza de ser possível conseguir concretizá-lo noutro lugar, mas pelo menos essa duvida ia lhe dando algum alento para congeminar que seria realizável.
Esta ideia, mais ou menos fixa, com o passar dos meses tinha-se tornado mais forte e depois de muitas hesitações tinha chegado a hora e o momento de se fazer em viagem.
Quinze minutos, não é muito tempo, apesar desta observação ser extremamente relativa, mas Jerónimo pensou tratar-se de uma eternidade, no breve caminho que o separou de sua modestíssima casa até à estação de comboios.
Por fim, a máquina iniciou a sua marcha, Jerónimo já se encontrava devidamente arrumado no seu lugar e pronto para o futuro.
Aos vinte anos era a primeira vez que abandonava a sua terra, este acontecimento, provocou-lhe uma atenção especial para a paisagem circundante, curiosamente, para ele, aqueles campos pareciam-lhe agora muito mais bonitos e à medida que se afastava sentia uma estranha emoção que quase lhe trouxe repentinamente as lágrimas aos olhos.
Ficou indignado, pensou que iria sentir uma enorme alegria em partir, em abandonar aquele lugar que nunca lhe tinha trazido nada de bom, um lugar de extrema miséria, sem esperanças, sem nada para descobrir e muito pouco para aprender.
Hoje faz precisamente sessenta anos do dia em que Jerónimo partiu, e depois de prolongada doença, nesta noite a dor tornou-se ainda mais forte, difícil de suportar, impiedosa com o corpo, silenciosa, arrogante, triste, ondulada por um vai e vem descoordenado mas insistente, repetida, inculta e cobarde.
Por vergonha, Jerónimo não chorou, podia o ter feito, mas de pouco lhe adiantaria, a energia máxima do seu clamor seria insuficiente, inútil, provavelmente desnecessária.
Curiosamente o cérebro continuava activo e a memória estava estranhamente resplandecente.
Nem tudo se perde, nestas horas, imaginou pensar.
Na sua bela casa, na grande cidade, este Homem que tinha realizado na vida tudo o que tinha projectado, deitado na sua cama, elegeu como ultimo pensamento, a sua infância e o lugar onde nasceu, esse lugar que não via à precisamente sessenta anos e sentiu muitas saudades.
Porque seria tão importante para si esse lugar.
Cerrou os lábios, apertou os dedos na palma da mão, avermelhou o rosto, engrossou as artérias do pescoço e depois delicadamente sorriu, fechou os olhos e partiu quase sereno, não podia viver mais.
Se houvesse outra vez, teria ele sido o mesmo!

sexta-feira, janeiro 16, 2004

Amanhã será um novo dia.

Seria verdade, seria possível, seria de acreditar, estaria louca.
Marisa não queria admitir, considerava-se uma pessoa equilibrada, tanto no racional, como no sentimental, no fundo uma pessoa ajuizada, talvez até necessária.
Mas naquela noite interrogou a sua racionalidade e só não fez o mesmo a nível sentimental, porque neste assunto muito mais se tem de relevar.
Quando se foi deitar, sentiu pouca vontade em adormecer, os pensamentos e as recordações eram mais fortes que a sua paz e sem paz é difícil dormir, só por extremo cansaço se o pode fazer.
Tentou descobrir a razão, compreender os porquês, lutar pelos motivos, sentir o que poderia ter levado a que tal situação acontece-se e nada, nada lhe trazia o móbil ao seu recanto de intelecção.
As imagens estavam frescas, demasiado presentes e a dor ainda lhe trespassava o coração, irrequieto e penoso.
Qual será a justiça terrena, ou para quem acredita, divina que permite que uma coisa assim ocorra a uma vida simples e muito desprotegida.
Depois de vinte anos de dedicação profunda, elogiada por competência, tinha chegado ao fim, tornara-se um excedente, uma vitima da recessão, uma ouvinte do temos muita pena, uma discussão de gente politica habilidosamente e eternamente empregada, um número.
Sentiu ódio, muito ódio, principalmente de si, mas também dos outros, da sua vida formatada no equilíbrio, estudada nos paços, calculada nos riscos.
O que poderia ter feito e talvez não sabendo porquê, nunca fez, nem quis saber.
Sentiu saudades dos sítios que só conhecia pela televisão, das boas noites em que saiu prematuramente, porque tinha que ser, porque amanhã tinha de se levantar cedo.
E agora, só agora, reflectindo solitária, desprezou-se pelo que não tinha vivido, pelo discreto comportamento, pelo prudente assistir, pela indiferença que mascarou de segurança.
Sem dinheiro nem poupanças, para suportar os seus pequenos luxos domésticos, a sua rotinada vida cinzenta e simples, pensou pôr-lhe fim.
Mas não o fez, talvez porque uma coisa é querer pôr fim à vida, outra é efectivamente executar o feito. Sim, como se põe fim a uma vida?
Domesticada no seu ser, só agora, depois de tantos anos, se recordou de quando era criança, da vontade de conhecer, de participar, de opinar sobre tudo, de lutar por um direito.
Amanhã iria saber o que seria um dia sem nada para fazer, com pouco para desaproveitar, um futuro totalmente incerto e desimpedido.
Olhou em redor e começou a perceber o número de coisas inúteis que a envolviam e que no seu tempo foram para si importantes, sentiu vontade de rir, mas esta noite ainda não seria possível, contudo amanhã será um novo dia.

terça-feira, janeiro 06, 2004

Derbi

“A arte de brincar como o melhor antídoto contra o fanatismo, gerador de comportamentos irracionais e anti-sociais.”

“Brincando, o ser humano encontra o repouso depois de toda essa tensão a que somos submetidos diariamente. Mas brincar também é uma forma de não tornar nossas convicções um peso para nós mesmos e para os outros.” (ver onde fui buscar)

Acho que devia ter assumido de forma mais directa os propósitos do seu discurso, eu percebi logo e digo-vos para não se deixarem iludir.
Não percebo no entanto, porque tendo toda a semana para o fazer, escolheu logo a primeira noite, a noite em que os nossos olhos iam lentamente começando a secar, que o ardor do avermelhado das vistas ia desaparecendo, que o estômago ia conseguir aguentar finalmente a primeira refeição, que os melões deixavam de ser uma espécie inimiga. Não podia deixar passar mais uns dias!
Todos tínhamos sofrido muito na noite anterior, era a inauguração em derbis, com pompa e circunstância, era a roupa do centenário, a fazer lembrar o Manchester United com outras golas, era o estádio cheiinho, era o fogo de artifício verde tinto, eu sei lá, tudo era tão lindo.
Podia ter sido a alegria suprema e isto dói, dói muito senhores.
Mas aquele Homem, que sabe que com os sentimentos não se brinca, talvez por já ter imaginado o nosso pesar, as nossas lágrimas de sangue, por querer cicatrizar o nosso tormento, por não suportar a dor de uma águia depenada, veio desviar a nossa atenção, em horário nobre e em directo, para outros assuntos.
Será que existem coisas mais importantes na vida, que o mundo não acabou, que os nossos seis milhões, números por baixo, devem seguir em frente as suas vidas, que três dentadinhas de Leão não matam ninguém, mesmo que desferida directamente no coração.
E assim, graças a estas e outras tentou, coisa que não podemos apesar de tudo concordar, desviar a nossa meditação para outros assuntos e desta forma descarada, tentar desvalorizar o massacre futebolístico que tínhamos acabado de sofrer, daqueles gentis senhores, listados com uma classe inconfundível, de verde e branco vestidos.
Foram três e podiam ter sido muito mais, felizmente tiveram coração e deixaram-nos, nitidamente de propósito, meter o nosso pontinho de honra, desde aqui agradeço o gesto, mas não era preciso tanta gentileza descarada, todos percebemos esse donativo, logo em directo.
Portanto reafirmo que apesar da intenção puder ser boa, da gravata verde que tinha posto, deste modesto texto ser verde e branco, podia ter esperado, pelo menos até Sexta-feira, como promete aqui no cabeçalho, e depois sim, dizia o que tinha a dizer, mas infelizmente não conseguiu esperar mais, nem uma hora que fosse.