sexta-feira, fevereiro 27, 2004

Afinal a racionalidade científica é de tudo o mais sentimental.

Einstein introduziu ao mundo no início do século XX, a Teoria da Relatividade, embora a esmagadora maioria das pessoas não percebessem nada do que ele falava, alguns entenderam que tudo é extremamente relativo e existem coisas, muito difíceis de se aprender.

Telefono, não telefono, telefono, não telefono.
- Então como estás? Já lá vai muito tempo.
Não, não.
- Tudo bem, essa vida?
Também não.
- Olá, tudo em forma!
Parece estúpido.
- Então como vais, telefonei-te para saber se está tudo bem.
Não, não me parece.
- Olá! Sou eu…Sim, estou bem a vida vai boa.
Se calar o melhor é não telefonar.

Susana vivia neste dilema, nesta indecisão, na busca do um futuro feliz.
Cada dia que passava sentia-se ainda mais insegura, sem saber o que fazer e sem certezas sobre como devia efectivamente agir.
No seu desespero, procurou nos livros a resposta ao seu problema, passou pelos famosos no romance e nada lhes encontrou, depois leu muita poesia e pouco conseguiu transportar para o seu mundo, mais tarde dedicou-se ao cinema e nada mais obteve que algumas lágrimas de ocasião, desprendidas no escuro da sala, a música foi o passo seguinte, mas também aí não vislumbrou o desenredo.
Quando pensava que jamais resolveria o seu dilema, angustiada, contrariada e sem muita confiança, pensando nada mais ter para fazer, encontrou por acaso, numa biblioteca da sua cidade, numa prateleira com ar abandonado, uns escritos perdidos, entre outros livros velhos, sobre a Teoria da Relatividade de Einstein e uma folha com o título “Alguns Pensamentos” de Karl Marx.
Logo não lhe despertaram qualquer interesse, não era aquilo que seguramente necessitava e não seria certamente ali que descobriria algo que lhe ajudasse, nesta fase da sua vida, ainda mais aqueles dois sujeitos.
Além disso, pensava, pouco puder compreender, do que ali estaria escrito.
No entanto, passados alguns dias, na monotonia das suas incertezas, resolveu, não sabendo muito bem porquê, voltar à biblioteca e dar-se ao trabalho, de dar uma vista de olhos naqueles textos, naquela coincidência que não lhe saía da memória.
Qual não foi a sua surpresa, quando descobriu que nas nossas vidas do dia a dia, o espaço e o tempo podiam variar, esticar e encolher consoante os nossos movimentos de observador sobre objecto focado, e que a única coisa imutável, segundo o autor, seria a velocidade da luz.
- Afinal tudo o que me interessa é relativo, é perfeitamente normal, eu não ter a certeza!
Animou-se com este pensamento e sentiu-se extremamente motivada.
Curiosamente, surpreendeu-se também por naquela racionalidade toda, impressa naquele texto, ter descoberto para si, algo tão sentimental.
Agora só lhe faltava, ganhar coragem para finalmente o fazer.
Mas se o fizesse, estaria preparada para assumir o risco, de ouvir aquilo que jamais desejaria.
Deteve-se um pouco com este pensamento, mas embalada pelo sucesso do texto anterior, pegou na outra folha, e exclamou sorrindo.
- Não me digas que este também é sentimental.
"O domínio da essência objectiva em mim, o irrompimento sensível de minha actividade essencial é a paixão".
Saiu da biblioteca apressada, chegou a casa e correu para o telefone.
Telefonou e ao fim da breve conversa sentiu-se corajosa e extremamente feliz, quem haveria de dizer que era assim tão fácil.

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Carta de um Senhor antigo a um Senhor actual.

Escrevo-te esta carta hoje, não sei bem porquê, porque tanto tu como eu, todos os dias, recordamos a mesma data, apesar de em anos diferentes, daquele fatídico mês de Setembro.

Não te censuro, nem o poderia fazer, eu também já matei, sem qualquer espécie de compaixão e remorso.
No meu caso ainda foi mais apetecível, pois ao contrário de ti muitas vezes tive a possibilidade de eu próprio o fazer e de os ver sofrer.
Pediam, suplicavam, talvez até, mas isso não te posso garantir, tenham deitado alguma lágrima verdadeira.
Contudo, nada me deteve, nada me poderia demover de completar o que tinha iniciado, sem dúvidas nem hesitações, matar aqueles sacanas.
A princípio quando engendrei o plano pensei que seria difícil de o concretizar, tinha de arranjar executores convictos, caça-los para lhes puder torturar e matar, e depois de forma segura, ausentar-me de qualquer responsabilidade, sobre o sucedido.
Levei dias a imaginar cenários, a inventar culpas e desculpas, a arranjar amigos de fora e de dentro, a prever desfechos, enfim, a preparar-me convenientemente para este acto tão importante e tão essencial.
Mais tarde, quando finalmente chegou o derradeiro momento, tanto ansiado por todos nós, foi só chegar-lhes ao pé, eles até pareciam que já aguardavam por este dia.
Muitos enterrei ainda vivos em valas comuns, outros torturei até à morte, outros ainda simulei-lhes o suicídio, alguns outros violei-os até ao falecimento e quando estava mais apressado, dei-lhes simplesmente um tiro na cabeça.
Eram velhos e jovens, eram homens e mulheres, nunca, para não ouvir comentários desagradáveis, vindos de alguns países amigos, fiz qualquer distinção de sexo, idade e raça.
Mas infelizmente o pior para mim, ainda estava para vir, estas coisas têm sempre imprevistos.
Apesar do trabalhinho ter sido feito de forma limpa e segura, de facilmente ter convencido os meus amigos que eu era a verdadeira vitima e que aqueles pequenos actos tinham sido cometidos para o bem de todos, para cada um que morria, aparecia um substituto do sacana anterior.
E assim facilmente conclui que o assassínio brutal que hoje tu cometes e que em tempos eu também havia cometido, não poderia ser solução para o nosso problema.
Apesar de saber que tu não conheces as tuas vítimas, que nunca falaste com elas, que nunca passeias ao fim da tarde pelas suas ruas e avenidas, queria-te talvez dar-te humildemente um conselho.
Estes Homens por uma causa justa ou injusta, se for preciso dão a vida, tentam esquecer a família, os amigos e partem como que movidos por uma força superior em busca da sua razão.
Movem-se como que embevecidos, deitam lágrimas de sangue por um ideal e são capazes de cair mortos à nossa frente sem um único sinal de arrependimento.
Se não os conseguires matar a todos, se não descobrires quem são eles todos, uns passarão o testemunho a outros e gastarás a tua vida a matá-los um a um.
E assim inevitavelmente, se quiseres neste tempo não ter de matar todos os dias, terás que dialogar com eles e tentar viver com eles.
Os teus netos ainda não tem idade para perceber esta nossa conversa, mas se ainda fores a tempo, talvez quando tiverem a tua idade, poderão ir celebrar uma alegria, conhecer um novo amor, festejar o nascimento de um novo filho, com os filhos daqueles que hoje tu assassinas.
Nessa altura, tu como eu hoje, estarás possivelmente, por motivos de saúde e insanidade mental, por compaixão, coisa que eu nunca tive, escondido e esquecido, sozinho em casa, em vez de estares esperando a morte numa qualquer prisão.

sexta-feira, fevereiro 13, 2004

É preciso reduzir as despesas.

Onda vai, onda vem, sonho vai, sonho vem, tempo vai, tempo fica.
Abriu pausadamente o olhar, o som do pequeno rádio continuava a embalar placidamente o seu espírito, perto a lareira transpirava aconchego e consonância, uma paz silenciosa acalmava aquela serenidade inventada.
Cerrou os olhos lentamente e de súbito, um barulho estranho vindo de fora, desinquietou-o, despertou-o e impacientou-o.
Levantou-se lentamente, da sua velha poltrona de estimação, antes do eventualmente previsto, desviou o cortinado e observou pela janela já despida.
Identificou a direcção do ruído e centrou o seu estudo na razão daquela desconfortável ocorrência.
Era o barulho típico, a altas horas, do camião de recolha de lixo.
Desta vez tinham sido escolhidos, dois dos seus vizinhos para serem levados para o aterro municipal.
Devido à sua idade avançada, à sua fraca memória, tinham sido considerados um excedente, um aparelho desactualizado, uma máquina obsoleta, um caso onde reparar não compensa.
Observou o afastamento do veículo e foi-se novamente sentar.
- Qualquer dia serei eu!
Na manhã seguinte, iriam chegar, dois novos vizinhos, para substituir os anteriores na sua habitação.
Estes eram jovens, mais capazes para a produção em maior escala, mais disciplinados, anatomicamente mais perfeitos, sem grandes custos de manutenção, com capacidades superiores de actuar em novos mercados, de competir cada dia mais, de conhecer em tempo útil, de sobreviver com sucesso, nesta era de globalização.
O tempo em que todos podiam contribuir com a sua experiência, com os seus ensinamentos e com o seu esforço, tinha chegado inevitavelmente ao fim.
A necessidade inadiável de reduzir despesas, deficit, aumentar a produtividade individual e melhorar os rácios económicos, obrigou a uma actuação mais eficaz, por parte dos nossos governantes.
Assim, reduziu-se na saúde e segurança social, na habitação, na educação e cultura, à continuação desprezou-se o ambiente e de seguida aligeirou-se drasticamente a máquina do estado.
Rapidamente, utilizando um conjunto de politicas adequadas, conseguiu-se recuperar o equilíbrio e criar condições para a confiança no futuro e nesta primordial metamorfose.
È certo que no início foi difícil ver o acesso aos cuidados de saúde muito dificultados, os lares de idosos a fechar, os medicamentos a aumentar o preço, o número de reformas a diminuir, as florestas a arder, os rios a secar, os animais a desaparecer, as casas a serem só para alguns, as escolas a não puderem ensinar, o espectador a ficar em domicílio, os monumentos a cair, as bibliotecas sem livros nem leitores, o custo de um papel obrigatório ser exageradamente alto, mas com o tempo tudo se tornou habitual.
Claro está, que não existe bela sem senão, o desafogo e confiança actual, não poderá repetir os erros do passado, desta feita será necessário investir fortemente na defesa do estado, não vá ter-se que dominar algum engraçadinho descontente, ajudar os privados a criar postos de trabalho para aumentar a sua riqueza pessoal e nunca deixar os números, tenham eles a forma que tiverem, saírem do nosso controlo.
Mas sobretudo honrar a obrigação de estabilidade que a seu tempo, assumimos, com todos os cidadãos.
Só assim seremos dignos dos vindouros e simultaneamente orgulhar aqueles vizinhos e amigos que partiram prematuramente, sem aviso nem despedidas.

sexta-feira, fevereiro 06, 2004

Os caricatos apontamentos.

Naquela tarde junto ao mar, na extensa areia da praia, João imaginou pela primeira vez a vida dos navegantes e não descansou enquanto não se viu embarcado.
Foi assim que meses mais tarde iniciou a vida de pescador de alto mar.
A princípio tudo para ele era admiravelmente belo, a brisa, a lua, a tempestade, as horas, o silêncio, a alegria de uma boa faina, tudo trazia à sua imaginação momentos de enorme agrado, esquecendo até o esforço despendido nas horas de trabalho intenso.
Nesses dias, recordava ridicularizando, o tempo em que alguns minutos podiam representar uma longa espera, onde uma discussão por tudo e por nada o deixava bastante exaltado, onde a temperatura de uma bebida motivava o seu protesto, onde uma chuva miúda sobre o casaco lhe trazia a irritação, onde uma simples constipação o deixava abatido.
Mas passado algum tempo, quando começou a acostumar-se à monotonia dos dias, a saudade começou a crescer-lhe, ao ponto de ter iniciado um processo de nostalgia profunda, tornando-o distante e pouco comunicador.
Esta angústia sempre presente acompanhava o seu estado de alma, e deixava-o pouco sociável e até, muitas vezes, pouco amigável.
Abstracto consigo mesmo, começou lentamente a escrever o que lhe vinha na alma, o que a sua mente em silêncio lhe enviava para o movimento ritmado da caneta sobre o papel.
Apesar da desconfiança e da estranheza dos companheiros de viagem, sobre esta actividade, escrevia muito, sobre tudo e sobre nada, longas páginas que só lia uma vez e depois guardava-as harmoniosamente, numa caixa destinada para esse efeito.
Esses trechos transmitiam-lhe uma profunda tristeza nuns dias e a enorme satisfação noutros.
Esta nova experiência provocava-lhe quase sempre orgulho, por isso, aquilo que escrevia motivava-o a persistir.
Foi assim dominando lentamente a técnica da escrita, deixou de dar erros ortográficos, aperfeiçoou a gramática e clarificou a transmissão de ideias, recorrendo muitas vezes à metafórica.
Não admirou portanto, que passados longos meses, quando a campanha marítima terminou e regressou ao seu passado anterior, tinha consigo uma enorme quantidade de palavras, impressas em papel branco, para reler e mostrar a quem pudesse apreciar aqueles escritos.
Quando já tinha matado todas as saudades, daqueles que deixou em terra, resolveu recomeçar a reler toda a sua produção literária, que a seu tempo lhe tinha motivado tanto empenhamento, algum orgulho e até uma pequena vaidade.
Foi nesse dia que percebeu que afinal, quase nada é intemporal, os textos por si produzidos, pareciam-lhe demasiado distantes, escritos por outros, lamechas e sem piada nenhuma.
No entanto a editora, os críticos e os leitores não pensaram o mesmo e o seu romance marítimo foi publicado, naturalmente com alguns ajustes e ainda hoje é um enorme sucesso.
João aceitou com conformação a opinião dos entendidos, nunca mais voltou ao mar, comprou uma casa jeitosa e começou a escrever outro livro, agora um conto policial que espera, se tudo correr bem, terminar em breve.
Nos poucos tempos livres, continua no entanto a brincar livremente com as palavras e a se divertir com aquilo que ele chama os “Os caricatos apontamentos”.
Hoje, por exemplo, está a escrever um texto intitulado, “Não se ganha nada, mas divertimos muito”, e está ansioso para o partilhar com os amigos, esses que certamente também terão alguma coisa preparada para surpreender e se for caso disso, admirar.