segunda-feira, março 29, 2004

Vamos ao Teatro.


TEATRO
AMADO MONSTRO
de Javier Tomeo



Dias 27 e 28 de Março, 1, 2 e 3 de Abril
Lotação limitada a 40 lugares
Recomenda-se reserva através do 91 724 08 68





Estreia (dia 27 de Março - Dia Internacional do Teatro) de "Amado Monstro", de Javier Tomeo, produção do APARTE, com uma encenação de António Guerreiro, Cenografia de Carlos David Marques e interpretação de António Baeta e Jorge Freitas.

AMADO MONSTRO, de Javier Tomeo, escritor espanhol, regista o insólito diálogo de duas personagens muito diferentes, apesar das enormes semelhanças, que acabam por revelar um vínculo comum: a presença constante de uma mãe obsessiva. Duas mães que, apesar da sua duvidosa existência, mantêm os filhos sequestrados transformando-os nuns monstros, iguais a cada um de nós, narcísicos dos seus projectos pessoais, das ambições das suas vidas.
Ficaremos seduzidos pela sua imagem e deixar-nos-emos envolver na contemplação destes monstros, que já não espantam ninguém, pois o nosso dia-a-dia está recheado de monstros de todas as espécies. São os monstros transformados em primeira página, em emissão especial, são os monstros que transformam as nossas vidas: são eles os que mais prosperam.
- Quem imagina que é? Já se viu algumaa vez ao espelho? Pensa que é tão forte, inteligente e belo como a sua mãe lhe fez crer?
Estamos constantemente reflectidos no espelho das virtudes ou das velhacarias e assumimos uma visão mais ou menos idealista da importância da nossa presença neste mundo. Nesta encenação transformamos o espectador em cada uma das personagens, reforçando a sua monstruosidade, através da construção de uma óptica de espelho invertido.
Qualquer um de nós pode ser um AMADO MONSTRO.

António Guerreiro

Intérpretes:
Krugger – António Baeta
João – Jorge Freitas

Encenação: António Guerreiro
Cenografia e Figurinos: Carlos David Marques
Desenho de Luz: Dora Inácio
Luminotecnia e Sonoplastia: Ricardo Nascimento e Carlos Rocha

Agora é consigo. Nós estaremos sempre por cá, ansiosos por recebê-lo.

Seja bem-vindo!

sexta-feira, março 19, 2004

Racionalidade humana.

Quando se levantou, ao som daquele grandioso estrondo, já a manhã ia alta.
Miguel mal tinha conseguido dormir, o seu corpo ainda sofria das mazelas da noite anterior.
Observou em redor, pela janela do quarto e do seu rés-do-chão sombrio, verificou que os prédios circundantes estavam intactos.
Depois daquela agitação toda, na noite anterior, pouco ou nada permanecia na sua memória sobre o que verdadeiramente tinha sucedido, estava ainda muito exausto e dificilmente iria esboçar um sorriso verdadeiro, neste dia.
Ergueu-se lentamente e cambaleando tentou alcançar a cozinha, dirigiu-se à porta do frigorifico, abriu-a e segurou com firmeza uma lata de cerveja.
Há quem afirme que a melhor cura para uma ressaca, é voltar a beber assim que se possa e foi isso mesmo que ele fez neste dia.
Ingeriu-a com alguma dificuldade e voltou para a cama, onde numa profunda desordem lençolar, atirou o seu desalinhado corpo.
Ainda bem que isto vai passar, não é vida que se tenha. Murmurou.
Estava determinado em voltar a adormecer e acordar igual ao ontem à tarde.
Mas rapidamente verificou que isso era impossível, o tempo nunca volta atrás e no hoje à tarde nada é igual ao ontem à mesma hora.
Por muito que se deseje, por muita força que se ponha nessa convicção, nunca se consegue, não adianta iludirmo-nos.
Existem alguns que tentam desesperadamente no presente, branquear ou esquecer o passado, mas essa tarefa gigantesca, ignora quase sempre os ensinamentos da história, que não começou agora, nem hoje, nem ontem, como não terminará certamente amanhã.
Neste pensamento temporário, motivado pelo seu mal-estar físico e psicológico, dirigiu as suas recordações à sua pacata vida e aos acontecimentos que vão marcando a sua existência.
Relembrou como as suas reflexões, sobre o que lhe rodeia, carecem quase sempre de objectividade, quer no tempo, quer nas simpatias por si formadas.
Muitas vezes, considerou que o tempo e a razão se iniciaram com o seu nascimento, não o nascimento físico, mas o nascimento intelectual, mesmo que esse fosse condicionado às suas vivências e interpretações, viciadas no raciocínio, confundidas pelo amor.
Foi aí que percebeu que para tudo o que acontece existe uma causa, não divina ou pré determinada, mas uma razão forte que a proporciona.
Que muitos conceitos são temporais, num escala de vida que ultrapassa os milhares de anos e as organizações sócias, dominadoras nos diversificados momentos.
Que uma vida é uma vida em qualquer parte do globo, que o choro pelo seu desaparecimento é igual em qualquer lugar, que uma criança, independentemente da sua cor ou religião, que ainda não conhece a maldade humana é igual a qualquer outra, só depois cresce e se torna adulta.
Que não valia a pena ter bebido tanto, para conseguir lhe dizer que a amava e hoje não se recordar se lhe disse ou não, e estar ali com o estômago às voltas e a cabeça à roda, a perder tempo a pensar na racionalidade da raça humana.

quinta-feira, março 11, 2004

Madrid, minha cidade por um ano - 11/03/2004.








Fotos retiradas do Jornal El Mundo - 11/3/04

sexta-feira, março 05, 2004

As profissões.

Acordou, como sempre, imperativamente às 6h e 30m, tomou um duche rápido, vestiu um dos seus fatos Armani, ingeriu um pequeno-almoço apresado e saiu.
Colocou as chaves no seu BMW e preparou-se para mais uma hora de condução lenta.
Eram 8h e 30m, quando pediu um café e um pastel de nata, na cafetaria em frente ao seu local de trabalho, passou os olhos sobre o jornal diário e quando faltavam 5 minutos para as nove, dirigiu-se ao prédio e subiu ao andar do escritório onde trabalhava.
Despiu o casaco e colocou-o cuidadosamente no bengaleiro por detrás da porta, onde se podia ver inscrito, numa placa dourada, Dr. Rogério Santos.
Quando o relógio anunciou as 9h estava sentado e pronto para mais um dia de trabalho intenso e cheio de decisões importantes.
Passou quatro horas a tratar de papelada misturada com breves reuniões, alguma dela completamente inútil.
Às 13h e 15m, entrou no restaurante, onde ingeriu uma rápida refeição de peixe.
Passou os olhos pela televisão, pediu um café, pagou a conta e saiu.
Eram 14h e 30m, quando depois de despir o casaco e o colocar cuidadosamente no bengaleiro por detrás da porta, se sentou novamente, para mais uma tarde de trabalho.
Desta feita, novamente a despachar papelada, que neste lugar costumam chamar, analisar projectos.
Por volta das 18h, levantou-se definitivamente neste dia, daquela sua cadeira ergonómicamente construída e preparou-se para sair.
Às 19h chegou a casa, ajudou a sua esposa a confeccionar uma refeição rápida e ingeriu-a observando as notícias da televisão.
Mudou-se para o sofá, onde viu o que estava a passar na outra televisão e de cansaço quase adormeceu.
Por volta das 23h levantou-se do sofá e assim que chegou à cama dormiu profundamente.
No outro dia iria se levantar imperativamente às 6h e 30m.
Durante vinte anos, repetia estes movimentos todos os dias da semana, com rigorosa precisão e exactidão temporal.
Estava tão acostumado, que já não lhe incomodava a sua monótona conduta.
E achava-se sobretudo um privilegiado, por trabalhar, numa empresa de sucesso e por puder dizer aos amigos que estava a ser bem remunerado.
Não foi de estranhar portanto que quando o seu filho, quis estudar um curso superior que pensava que gostava, ele se tenha oposto vivamente, a essa escolha.
- Esse curso não serve para nada, onde pensas vir a conseguir um bom emprego com isso, se eu tivesse tirado um curso desses onde andaria hoje, achas que o meu emprego se consegue com cursinhos desses, tem mas é juízo filho.