quarta-feira, abril 14, 2004

A noite do ensaio.

A cena decorre numa animada festa.
O motivo desta festa é completamente irrelevante para o texto, será uma festa como outra qualquer.
A noite já ia longa, era aproximadamente uma da madrugada, Júlio aproxima-se de Rita, pela abordagem, reconhece-se neles intimidade.

- Então Ritinha, aí a um canto, não pareces estar a divertir-te muito.
- Vai chamar Ritinha, ao teu primo.
- Tanta arrogância.
- Olha-me bem nos olhos e tenta ler neles, o que vês?
- Vejo uns olhos lindos.
- Fala-me a sério, por favor, responde-me francamente.
- O que queres que te diga, os teus olhos são belos.
- Não vês neles uma profunda solidão.
- Vá lá, bebe mais um copo que isso passa.
- Consegues pensar um minuto, estar presente um minuto.
- Se achas que é o lugar e o momento, está bem, mas preferia deixar para amanhã.
- Será sempre amanhã o teu momento?
- No amanhã, se quisermos, podemos recomeçar o hoje.
- O que queres renovar?
- Desejo reavivar momentos de ilusão conjunta, de frases feitas, de palavras iguais, de troca de simpatias e banalidades, de encontros simples, de mundos fáceis.
- Nada de demasiado profundo encontro nessa ânsia.
- Os gestos despretensiosos podem ser muito profundos, basta observá-los com ponderação.
- Apetece-me berrar, saltar a imitar macacos, despir a t-shirt, subir para cima desta mesa, para que ninguém me veja mas todos reparem em mim.
- Então grita, porque não gritas?
- Não acredito que solucionasse alguma coisa gritando, ninguém iria ouvir, ou melhor, dar atenção, além disso, não gosto de dar barraca.
- E para que queres tu atenção?
- Também não sei, como não consigo perceber esta cobardia de preferir o silêncio ao grito, de ficar muda toda a noite a sufocar.
- Não é bem assim, tu até conversas bastante.
- Este pavor nas malditas palavras, no perfeccionismo dos vocábulos prudentes, esta estúpida melancolia de imaginar o teu ridículo amor, esta minha ausência continuada de sentimentos profundos, esta macabra obsessão em ver-te feliz, sem mim.
- Tu fazes parte da minha alegria e eu não me imagino a viver sem ti.
- Deixa-te de frivolidades.
- Contigo não me importo de ser quixotesco.
- Por favor não me respondas assim.
- Assim como?
- Com conversa de conveniência.
- Mas é verdade, o que queres ouvir, diz-me.
- Insulta-me, sê activo, faz-me sentir menos culpada da minha falta de coragem.
- De destemor para quê?
- Para te dizer que te odeio, por não seres o meu fantoche de estimação. Por amargurar quando não estou contigo e me cansar de mim quando estás presente.
- Mas ao menos é uma fadiga suportável.
- É um abatimento sem solução fácil, porque assenta no receio.
- No medo de quê?
- De imaginar que provavelmente qualquer dia não farei mais parte da tua ventura.
- Achas que esse dia vai chegar?
- Comigo chega sempre, porque não passo de um personagem temporal, que mais tarde ou mais cedo sairá deste palco, para dar lugar a outro.
- Mas tu queres sair?
- Hoje era a ultima coisa que queria fazer. Talvez amanhã.
- Eu por mim ficaria aqui para sempre contigo.
- Não sejas cómico, sabes o que significa para sempre.
- Até à eternidade.
- Olha bem para mim, tu não me suportarias vinte e quatro horas seguidas e falas em perpetuidade.
- Eu talvez te conheça melhor do que imaginas.
- Eu efectivamente reconheço que talvez nunca te darei a oportunidade de te conhecer.
- Vá deixa-te disso, dá-me um beijinho e anda divertir-te, amorzinho.
- Vai chamar amorzinho, ao teu primo.

Rita e Júlio terminam o ensaio.
Rita chegou a casa e libertou toda a sua energia interior chorando como uma criança.
Júlio foi a um bar, onde bebeu uns copos e fez olhinhos a uma rapariga que se encontrava na mesa da frente.
O que se passou depois só eles é que sabem.

sexta-feira, abril 02, 2004

Inspiração ou Transpiração

Talvez outro dia que não hoje, voltarão os textinhos do costume, por agora remeto-vos unicamente a imagem, por mim recebida, da nossa última reunião, do momento em que discursava para vós, sobre as “Especificidades dos Povos”, apreciei e sensibilizou-me o vosso entusiasmo nas minhas palavras.





Eu por mim irei tentar encontrar a inspiração ausente (não vou aqui explorar, por motivos óbvios, a teoria da inspiração ou transpiração!!!), desta feita, depois do teatro, nos museus.





Para a semana, logo se verá.