segunda-feira, junho 28, 2004

A ignorância do amor de Augusto.

Oh, caro Augusto, parece difícil de acreditar, que só hoje, passados quase vinte anos, depois de cada um ter prosseguido a sua vida, tenha tido a vontade e talvez coragem, de escrever isto.
É verdade, ao encontrar-te bela, como nunca deixas-te de ser, ao cruzar o teu olhar no meu, ao abraçar-te como quase desconhecidos, ao trocar algumas palavras de conveniência e ao despedir-me, com um até sempre, felicidades.
Aqui, agora percebo essa minha angústia, esse sofrimento silencioso, essas palavras no teu olhar que umas vezes imaginava entender e outras ainda me baralhavam mais.
Lembras-te ainda daquela vez, em que ingeri uma garrafa de vinho, para te prometer amor eterno, tu fingiste ouvir, sorriste e disse-te serenamente que eu não era o homem que procuravas.
No momento fiquei bastante triste, afinal tu tinhas razão, quase tudo em nós parecia antagónico, mas naquela tarde não o queria entender, muito menos assumir.
Naquele tempo, sabes, tinha uma obsessão, estar dentro da tua cabeça, saber o que pensavas a todo o momento, só depois de muito deprimir, percebi, como isso me tornou um homem inseguro.
Na verdade, a vida tem destas coisas. Não é, existir sem mais nada e eu, isso, infelizmente, nunca pude entender.
Dessa vez e mais uma vez, respeitei a minha perturbada racionalidade, esperei sempre a tua palavra para reagir, nunca tive a coragem de agir e tu também esperas-te.
Depois agoniei sozinho, com o teu silêncio, inventando diálogos em que sairia triunfante, mas aí já estava irremediavelmente perdido, nada mais pensei que poderia querer em ti e fugi.
Que formas de convivência podem existir além da igualdade da amizade desinteressada ou do afastamento forçado por enamoro de uma das partes, que não envolvam a falsidade da ilusão, o reavivar de sentimentos, em cada olhar sorridente, em cada frase sincera, em cada abraço comovido.
Sempre insisti na franqueza, mesmo que sentimentalmente violenta e tu por isso sempre me admiras-te, elogias-te e talvez chegas-te a pensar que poderias, algum dia suportar este amor.
Naquele tempo pensava que se em alguma vez me olhasses profundamente nos olhos e eu sentisse a alegria dos teus e me dissesses – Vamos! Eu te teria seguido para qualquer lugar.
Mas quando me interrogas-te sobre o que poderíamos fazer juntos, nada mais me ocorreu que um estúpido “podes contar comigo”, talvez recordando algum panfleto de alguma agência seguradora.
Haverá frase mais estúpida que esta para se prenunciar num momento destes.
Existirá maior ignorância que equacionar e problematizar a vontade de se tentar ser feliz, qual será a medida que nos pode ensinar a dimensão sonora para se prenunciar sinceramente e convictamente a palavra amo-te, sem receio de nada ouvir como resposta.
Ainda hoje não tenho a certeza se o devia ter dito, ainda hoje me recordo de ti, do teu sorriso que sempre foi sincero e bonito.
Ainda agora gostaria que lesses estas palavras mesmo que não te interessassem para nada actualmente, antes de eu as reler e as rasgar, para as colocar no caixote do lixo por serem demasiado ridículas.

segunda-feira, junho 07, 2004

Filarmónica 13 de Junho.

Na localidade do João, existe uma particularidade muito curiosa.
Aos cinco anos, aos habitantes é oferecido um instrumento musical e ao atingirem os oito incorporam com pleno direito a filarmónica local.
Todos se empenham com extrema dedicação e profunda alegria a este maravilhoso projecto, que é sem dúvida a menina dos olhos de todos.
Como todas as filarmónicas, esta possui um maestro e vários naipes de instrumentos musicais, os seus executantes, organizam vários ensaios por semana e a partir de certa maturação, nas respectivas obras musicais, o maestro define se estas se encontram em condições de ser apresentadas em publico.
Estranhamente, esta filarmónica tem um problema adicional, nunca toca em publico, fácil será perceber que devido ao facto de todos incorporarem a dita orquestra, esta não possui publico na sua própria localidade.
Ora, sendo assim, a única forma de apresentar o esforço do seu trabalho dedicado, era fazê-lo fora da povoação, mas talvez por desconhecimento ou inveja, as outras povoações nunca a convidavam, preferindo para tal, ouvir concertos das suas próprias filarmónicas, ou caso não existissem, daquelas em que o número de executantes não implicavam tantos problemas de logística e eventualmente necessitassem de menos pratos à hora do jantar. Diga-se em abono da verdade que o jantar era necessariamente oferecido, pois não existia qualquer outra retribuição monetária para o trabalho efectuado pelos músicos.
Mesmo assim, a sua tarefa nunca desmereceu, continuavam a sentar-se nos ensaios com o empenho e a motivação de sempre.
Cada naipe organizado por filas, em determinadas zonas no seio do grupo, a que o maestro devidamente conhecedor da forma de proporcionar o melhor som, ia escrupulosamente indicando.
Às vezes, existia uma certa disputa entre os vários naipes de instrumentos e até dentro do mesmo naipe, mas cedo todos percebia da importância de cada um, no todo da sua orquestra e as contendas ficavam por ali.
O pior, contudo, aconteceu quando alguns sentiram que se eram todos igualmente importantes, não poderia haver uns mais importantes que outros.
Assim, não tinha qualquer sentido existir um primeiro clarinete e um segundo clarinete, um terceiro trompete e um segundo trompete, mais ainda, o maestro não tinha o direito de comandar e ordenar tudo.
Foi assim discutido, votado e por maioria, com um voto contra, decidiu-se que cada um tocava o que queria, sentava-se onde queria e o maestro passaria a tocar também, a única restrição seria na hora de tocar em conjunto.
Todos eram obrigados a interpretar a mesma música e essa era escolhida rotativamente pelos vários elementos da filarmónica.
A principio o som parecia estranho, tubas sentadas ao lado de clarinetes, trombone entremeio a flautas, saxofones ao lado do bombo e requinta ao pé da trompa.
Esta organização desorganizada, surgia motivada essencialmente pelas simpatias de cada pessoa e muitas vezes pelos laços familiares, nada tendo haver com o instrumento que executavam.
Passado algum tempo, os habitantes acostumaram-se ao novo som, sentiram que estavam a construir algo de renovado, que afinal existiam formas de organização que lhes proporcionavam mais satisfação e maior alegria.
Mas por outro lado, mais empenhamento, pois agora, já não existia um maestro para lhes fazer todo o trabalhinho de casa.
Como em tudo na vida, não existe bela sem senão, o maestro que já não sentia em si, a importância e o relevo de outros tempos, começou a tentar convencer alguns, da fraca qualidade das novas interpretações, do trabalho desnecessário e do empenho individual, agora exigido, em relação à ordem anterior.
A alguns elogiou-os como dotados, ofereceu-lhes convites para ingressar noutras filarmónicas, de outras localidades, essas sim com possibilidades de dar concertos e trazer a fama merecida.
Mas apesar do esforço, as pessoas sentiam-se bem onde estavam e não queriam mudar.
E assim por desespero, o maestro, numa bela manhã, decidiu pedir ajuda a entidades exteriores.
Explicou-lhes que era preciso devolver à sua filarmónica o som de outros tempos e que ele, com a sua competência, estava disposto a sacrificar-se e organizar novamente tudo.
Em troca a sua filarmónica, tocaria gratuitamente, diga-se, sem jantar oferecido, nas outras localidades, durante todo o ano.
Os governantes locais, viram aí a possibilidade, talvez única, de suspender as suas, muitas vezes, fracas filarmónicas e deslocar os seus músicos para este novo projecto.
E assim foi, vendo a redução de custos que esta nova organização sugeria, a proposta foi aceite com rapidez e satisfação pelas várias autoridades vizinhas.
E hoje, é com agrado que se observa, que a filarmónica 13 de Junho, efectua lindos concertos por toda a região.
É claro que, também aqui existe um senão, os habitantes da terra do João, já não aprendem musica aos cinco anos, se incorporam na filarmónica aos oito e o único membro da filarmónica 13 de Junho que vive nesta bonita localidade é o seu maestro.

quinta-feira, junho 03, 2004

Ainda não é desta...

Os Blogs são mesmo isto,... quando se pode ou quando nos apetece.





P.S. – Por motivos pessoais tive de fazer um interregno, depois veio a preguiça e o calor...mas hei-de voltar em breve, espero...