quarta-feira, julho 28, 2004

Tudo para aprender.

Maria de Fátima vivia num lindo lugar isolado, rodeado por montes e vales verdes de difícil acesso.
Apesar de modesta, a sua casa, que partilhava com os pais, era aconchegada e agradável.
Desde muito cedo, quando iniciou a sua vida escolar, acostumou-se a alguns sacrifícios.
Levantava-se todos dias pelas 6 horas, caminhava, independentemente da chuva ou do calor, cerca de meia hora, depois apanhava o autocarro, para que pudesse chegar à escola por volta das 8 horas e 15 minutos.
O regresso das aulas era independente do seu horário escolar, o autocarro numa perspectiva de economia de gastos, executava uma só viagem, partindo às 18 horas em ponto, obrigando Maria a chegar a casa por volta das 20 horas e 15 minutos, bastante cansada.
Ao fim de semana, quando não havia escola, costumava ajudar os seus pais na labuta campestre e por isso habitou-se a amar a natureza, os pássaros e este lindo lugar.
Foi assim, que levou rotineiramente os seus 12 anos escolares, sem grandes sobressaltos nem grandes alegrias, nem grandes tristezas.
Apesar desde cenário de algum sacrifício, Maria sempre foi uma excelente aluna, por isso, quando terminou o ensino secundário, seus pais, apesar das grandes dificuldades económicas, incentivaram-lhe a continuar a estudar.
- Não precisamos de dinheiro, este lugar e tu é tudo o que temos e precisamos para ser felizes, vai que nos havemos de arranjar.
Maria ao início mostrou-se um pouco reticente, seria um sofrimento que não poderia exigir, mas depois, o seu coração falou mais forte e decidiu candidatar-se à Universidade.
Foram breves e trabalhosos os cinco anos que demorou a completar a sua licenciatura, os pais, esses, não cabiam em si de tanto orgulho e saudade, quando a viram regressar.
Maria também estava feliz, não tanto pelo papel que lhe tinham oferecido como prova do seu esforço, mas sim, porque agora, teria finalmente a oportunidade de retribuir o sacrifico dos seus país, ajudando-os, mais que não fosse, monetariamente. 
No primeiro ano não conseguiu colocação em nenhuma escola, no segundo trabalhou três meses a 100 km de distância do seu lugar, este ano depois de oito meses desempregada, conseguiu finalmente um horário incompleto, cerca de 10 horas, que nem sequer chegavam para pagar a renda do modesto apartamento.
Se não fosse a penalização, por não aceitar este compromisso, apesar de distar 500 km do lugar onde quase sempre tinha vivido, teria recusado, mas não o fez, na esperança de amanhã conseguir algo melhor.
Infelizmente para ela, hoje no dia do seu regresso, ainda sem qualquer futuro profissional definido, sentiu, uma amargura infinita, que quase a deixou sem esperança.
Ao olhar o seu pequeno televisor, quando preparava o retorno a sua casa, quando treinava alguns argumentos para se mostrar feliz e de bem com o mundo, reconheceu no ecrã o lugar onde vivia, o carvão das árvores, a morte dos pássaros e as chamas devorando a sua modesta casa.
Depois ouviu atentamente a voz de seu pai, ao lado da sua mãe.
- Eu não quero dinheiro, quero o que este fogo me roubou e a minha filha junto de nós.
Desta vez, os seus doutos conhecimentos em literatura, de nada a podiam servir, a vontade em ver respeitado, o esforço de uma vida, pouco a importavam, finalmente tinha compreendido como às vezes o mundo pode ser tremendamente injusto.
Cerrou os dentes, enxugou as lágrimas e saiu de porta fora apresada, sentindo-se igual ao dia angustiado, em que pela primeira vez abandonou o seu lugar e mais tarde se sentou na pequena mesa, da pequena escola primária com tudo para aprender e tudo para recomeçar.