quarta-feira, outubro 13, 2004

Olha, mais um crime na TV!

Desta vez e pela primeira vez, depois de ter cometido mais um hediondo crime, sentiu um forte peso psicológico.
Aquela coisa de cortar uma simples cabeça a um inocente homem, já não o motivava como outrora.
Imaginou que finalmente a sua forte moral religiosa, adquirida em tempos já longínquos, tinha-se sobreposto à sua franca e natural vontade de aniquilar.
Aquela opressão recente, estava a dificultar-lhe a calma plácida dos dias e isso, podia efectivamente trazer-lhe graves problemas.
Sempre sentira um alívio em cada novo crime que cometia e este estar era, segundo ele, fundamental, para que até esta data ninguém desconfiasse ou minimamente suspeita-se de que ele era o executor.
Este novo sentir acompanhou-o obsessivamente durante vários dias, ao ponto de equacionar o abandono definitivo de tais feitos regulares.
Tinha dificuldade em entender porque só agora e logo agora sentira algo para si tão estranho e imprevisto.
Nada de relevo conseguia identificar como razão premente para tal facto insólito, no seu quotidiano rotineiro e serenamente calmo.
Seria só o facto de o que agora fazia, não ser mais notícia de realce, perante os acontecimentos relatados no dia a dia televisivo, sobre as actividades criminosas do diário dos lugares.
Teria pois que urgentemente resolver este conflito e engendrar um novo plano motivacional para retomar a alegria de antigamente e as fortes convicções primitivas.
Pensou e repensou muito sobre todas estas questões e finalmente chegou a um epílogo.
Decidiu que haveria que reduzir significativamente a idade de suas vítimas, aumentar o desprezo sobre as inocentes faces e multiplicar razoavelmente o número de seus feitos.
Por outro lado, teria de identificar mais uma causa justa, para puder juntar-lhe alguns outros companheiros de jornada.
Isso não seria, certamente o grande problema, por um pagamento razoável e uma razão bem descrita, não faltaria por aí gente desesperada e pronta a colaborar.
Foi muito mais fácil encontrar voluntários e cúmplices do que no início pensava imaginar e naquela longa tarde enquanto orientava a colocação dos engenhos explosivos pelas salas do infantário, sorriu serenamente e murmurou.
- Aqui está uma coisa que me deu algum trabalho, mas sem dúvida bem feita e que vai dar bramido por aí.
Saiu discreto pela porta das traseiras e foi calmamente para casa, onde sentado no seu confortável sofá, com um dos seus pequenos filhos ao colo, devorou um saco de pipocas e refrescou-se com uma lata de um refrigerante acastanhado.
Depois olhou desatento e com desprezo o plasma, presenciando pacífico e brincalhão, em directo, seus parceiros e o desfecho desta sua ultima engenhosa produção.
Certamente hoje já poderia novamente dormir descansado e sem qualquer indisposição que lhe perturbasse o sono.