quinta-feira, janeiro 20, 2005

Carta ao “Cão do Guedes”, seguido de “O sonho do peixe vermelho no copo de dentes boreal ou a jovem leda madrugada”(sonho primeiro de Marcolina Dinis)

Senhores,
Há duas coisas para as quais nunca tive jeito: a mentira e a arte de transferir para palavras os sonhos. O meus sonhos. Porém, a urgência de compartilhar convosco, leitores bloguistas, a agonia dos factos que a seguir relato, impele-me a arriscar a escrita na mais fina fé de que esta não venha a enredar, por manifesta deficiência, o supremo contrato a que devotamente me tenho dedicado: o do respeito luminoso e intransigente à glória da verdade.
É a matéria dos sonhos o que vos trago, aqueles que entretêm as noites ao comum dos mortais, quando o corpo se rende fustigado pela labuta do dia. Sou uma mulher como as outras do meu tempo, simples e convicta de que a reserva da intimidade é um valor que eleva o ser humano. Que faço então aqui? Não é o sonho, porventura, a mais secreta respiração da confidência? A verdade é que já não o sei. Sinto-me confusa, embora não deixe de pensar que um pedido de ajuda é, também no meu caso, tanto prova de fraqueza quanto de superação dos receios mais enquistados.
Releve-se, pois, que destas contradições se imponha o nome ficcionado de Marcolina Dinis, que pretendo usar nesta nossa relação. Tenho quarenta e seis anos e vendo flores e revistas num quiosque normal diante de um hipermercado. O tempo tem passado por mim de uma forma não fácil, mas não me queixo dos sobressaltos da vida. Tenho um marido, que é polícia, e um cão rafeiro que quero como a um filho, talvez por não o ter tido. Para lá disto, pouco mais haverá a contar.
Acontece que sonho durante o sono, já o havia dito, sem todavia ter referido que nunca me recordo do que sonho. Disseram-me que isso nada tem de estranho. Há pessoas assim. Uma cliente mostrou-me a passagem de uma entrevista com a actriz Fernanda Serrano em que esta confidenciava o mesmo: os sonhos acontecem-lhe sem que jamais se fidelizem à memória. A cliente procurou sossegar-me com esse exemplo: o de uma pessoa famosa que usa a memória como uma ferramenta de trabalho e que, porém, não consegue reproduzir os seus sonhos. Eu andava agitada por essa altura, e esse facto tranquilizou-me. Deixei de me importar.
Levo, portanto, umas boas dezenas de anos a sonhar sem contudo haver nisso o mínimo de utilidade marginal. Os sonhos que sonhei de nada me têm servido; não me informam, não me elucidam a vida, ainda que perscrute estados de ânimo por eles induzidos. Por que outro modo se pode explicar o acordar de exaustão ou de melindre, de puro júbilo ou euforia, quando lá fora chove ou não chove e se isto é unicamente o que acrescenta diferença a todas as manhãs do ano em que à mesma hora me levanto para abrir o quiosque, com excepção das segundas-feiras? Assim tem sido, até ao dia oito de Janeiro deste ano de dois mil e cinco.

Na madrugada do dia nove de Janeiro tive um sonho. E ao acordar, cinco minutos antes do despertador massacrar as seis e meia da manhã, o sonho estava na minha cabeça, quente, vivo, inquietante. As imagens tão nítidas. Em turbilhão. O meu sonho de peixe vermelho num copo de dentes boreal.
Levantei-me, sobressaltada. Corri para a casa de banho com receio de que o meu marido pudesse perceber que algo mudara em mim. Creio que isso me afligiu ainda mais pois nunca fui pessoa de esconder. O corpo suava, agitado por um estranho torpor, mas ao olhar o espelho achei-me demasiado serena e tão estúpida quanto o sorriso de uma princesa; digo-o, porquanto, efectivamente, dei por mim a sorrir. Que raro! Afastei o cão com um movimento de perna e voltei a deitar-me. O meu marido pousou-me a mão ensonada na anca e fiquei de olhos abertos a olhar o tecto tão distante.
Havia um campo de papoilas que terminava abruptamente no mar. Era o som do marulhar das ondas que ondulava as papoilas e não o vento. Eu avançava muito devagar, na sua direcção. Só que eu não era eu. Sentia-me apertada, como se os braços estivessem moldados por uma carapaça e só mais adiante é que dei pela minha condição de tartaruga. O peso que sentia era tremendo, e já quase a entrar no mar, sendo tamanha a agitação, percebi que alguém me cavalgava ou, se quiserem, tartarugava. A figura do dr. Mário Soares eu só reconheci quando este saltou da carapaça directamente para a água. Tinha um polo com um crocodilo e uns calções às riscas. Um pulguedo da areia que passava por ali, aliás de feia traça, disse-me: se eu fosse a ti punha-lhe uma acção de despejo, ao que eu retorqui: ele não é meu inquilino. Por essa altura o dr. Mário Soares aprestava-se a mergulhar e foi quando me gritou: você aí fique quietinha, ouviu!? Eu fiquei quietinha.
Muito mais tarde entrei no mar. Um mar vermelho. Havia uma festa. Aí já estava retransformada em mim, só que tinha as pernas completamente sem pelos. A maioria dos convivas eram peixes. Passou uma salema a beber gin bosford e cada vez que arrotava as bolhas de ar ficavam enormes. Então recordei-me que uma vez eu e um namorado apanhámos a carreira para Setúbal e ele levou-me a almoçar e comemos uma salema na brasa que era o mais barato. Deu-me nojo a puta da salema a beber o gin. Quis cuspir atrás de uma anémona, mas parei a tempo. Estava ali uma pessoa que reconheci de imediato, e ia saudar a senhora quando esta se adiantou: olá, sou Agustina – estendeu-me a mão. Cumprimentei-a com um entusiasmo inexplicável. Enquanto os dois peixes palhaço rodopiavam em torno da minha cabeça, curiosos, excitadinhos, ela disse, apontando ora para um, ora para o outro: este é o Bessa, e este é o Luís. Prazer, retorqui. Ficámos por ali uns momentos em que nada aconteceu. D. Agustina estava um pouco, como hei-se explicar... embaraçada. Até que pressenti um vulto por detrás de uma rocha. Aproximei-me um pouco. O sr. Cesário Borga vestia apressadamente os calções de banho. “Olá, que tal?”, saudou-me.
Acordei a lembrar-me do sonho e, bem podem imaginar, tolhida por um pânico enorme. Todavia eu habitava o copo de dentes que o meu marido usa para tomar o remédio. Lá estava eu, um minúsculo peixe vermelho, às voltas num copo de dentes ainda cheio de borealnisaspin, uma solução para os rins que o Adalberto deve tomar ás cinco da manhã. E foi uma coisa estúpida porque não tinha muito por onde me mexer e chegada aquela hora o meu marido, às cegas, pegou no copo de dentes do boreal (como lhe chama, a abreviar) e engoliu-me juntamente com o remédio. Uma inevitabilidade. Apesar do estorvo desagradável dos ácidos, esta foi, digo-o sem rebuço, a melhor parte do sonho. A terna madrugada em que habitei as entranhas do meu marido. Aí vivi uma espécie de navegação feliz; senti-me jovem, e peixe, e vermelha, e contente por o não conseguir ver estando dentro dele.

Se vos disser que tudo isto é demasiado estranho, pois é tão óbvio e é tão pouco. Se vos disser que me incomoda, minto por intensidade: envergonha e é absolutamente torturador. Hoje eu sei que não estou preparada para os meus sonhos. Mas não os quero escamotear. Resistirei à tentação de adulterar o que sonhei enquanto puder, sobretudo enquanto a memória não duvidar.
Sou uma mulher simples, já o disse, e é na qualidade de reclamante das interpretações possíveis sobre o meu sonho que me dirijo à gestão do “O Cão do Guedes”. Solicito o préstimo da partilha com a comunidade dos leitores, que mais e melhor do que eu saberá indicar-me o caminho de regresso à tranquilidade dos dias. Que significa afinal tudo isto?
É com esperança, sinceridade e muita fé que a vós me confio. Atentamente.

Marcolina Dinis.