terça-feira, janeiro 18, 2005

De outro planeta.

Eu que sou de outro planeta, este texto te cedo, porque ainda ninguém nada de tão sincero te ofereceu.
Porque escrevo para quem me lê, para quem me pode ler, para aqueles que na sua diária luta me dão razões para lhes amar, para aqueles que nunca ninguém lhes amou.
Por isso vou escrever estas linhas, como outro cantador, para os que lhes deixam escutar-me, para os que ainda podem e querem ouvir, para aqueles que têm todo o universo para amar-lhes, para ti simplesmente.
E tu que não alcanças estas letras, porque nunca as aprendes-te a juntar, não te inquietes, às vezes sobra-te mais tempo para entender.
Saberás certamente aqui pensá-las, são claras como o teu raciocínio, como os teus sentimentos, ainda que iletrados.
Porque falam de coisas evidentes, de vidas simples, de sentimentos primários, porque articulam o sorriso, porque proferem do afecto.
Não te deixes intimidar pobre intencional ignorante, nada deves temer, nada tens de recear, nada podes aprender daqueles que tudo pensam saber, daqueles que tudo dizem entender, daqueles que de ti se aproveitam, nas poucas vezes que precisam, afinal o que há para pensar, quando se fala de sentimentos.
Tu que na tua bondade, na tua tocante generosidade não consegues ser egoísta, não sabes traficar um sorriso, tu que te deitas só depois de ver os outros partir, quando é chegada a hora em que já não fazes falta alguma e sentes que agora sim era tempo de ficar.
Eu que sou de outro globo, estas letras comovido te escrevo.
Diz agora, eu tenho todo o tempo para te ouvir, não tenho pressa, estou aqui, quero aqui estar, quero ouvir-te, não tenhas medo de nada, não tenhas timidez de insignificâncias.
Tu mais que ninguém, hoje passado tanto tempo e tantas horas de sociedade, quero entender, quero saber de que choras, porque não consegues ser cruel e só para ti o sabes ser.
Porque insistes em nada mendigar, eu estou aqui e desejo ouvir-te, hoje mais que nada neste mundo, tu és o mais importante para mim.
Deixa-os partir, concentra-te, agora neste preciso momento não lhes fazes falta alguma, por isso não te iludas, estás só, amanhã talvez, quando depois de uma noite maravilhosamente passada, sentirem o descalor do vazio, sentirão necessidade do teu amável abraço, do teu maravilhoso universo, mas agora não te cegues, neste preciso momento o imediato é o mais importante e o imediato é uma palavra que nunca podes-te apreender, se calar nunca poderás compreender.
Neste urgente, espero por ti, pelas tuas palavras ou pelos teus silêncios falantes, pelo teu sentido, o teu amor ou desamor, possivelmente, se conseguires uma única vez que seja, pela tua crueldade.
Nada me dizes, porque sabes perfeitamente que saberia o que ias dizer.
Reduzo-me a minha real insignificância na tua vida e prometo que se quiseres voltar para tudo isto repetir eu tentarei novamente aqui estar.
Talvez antes de definitivamente fugires e aí sim, sentirei falta do teu maravilhoso e singular afecto, quando eu perceber verdadeiramente que tu existes, quando eu achar que terei tempo para ti, quando eu sentir vergonha da minha falta de sensibilidade, ser humano como os outros.
Quando me deixar de panfletos e palavras de conveniência, quando verdadeiramente saber avaliar a importância do teu unilateral sentir.
Mas agora se nada dizes, terás de esperar, porque agora também eu tenho o presente e na actualidade serves-me para muito pouco, ou melhor, a tua singular gentileza é-me extremamente útil nos tempos solitários, só nesses.
E eu que sou de outro planeta, isso é-me muito grato, desculpa a frontalidade, demasiado útil.
Mas se nada me falas e continuas assim a saber sorrir, sem uma única palavra tua de ti, então, terei que partir para o momentâneo e certamente hoje irei dormir mais descansado, sabendo que tudo tentei e querendo, me enganado, acreditar que nada mais posso fazer por ti e pelo teu amargurado silêncio.