domingo, janeiro 09, 2005

O ano novo de Madalena.

Agora que a poeira assentou e o ano novo trouxe-lhe a rotineira vida quotidiana, Madalena aproveitou para fazer uma reflexão sobre a sua actuação recente e projectar a sua conduta futura.
Sabe-se bem que estes inícios de ano são normalmente utilizados para se retrospectivar o passado e idear o futuro, normalmente não se muda nada, mas insistimos nesta prática.
Madalena, como a generalidade das pessoas, não foge à regra desta máxima, nestas datas agora findas.
Assim, depois de muito reflectir e pouco lhe ocorrer, porque apesar de tudo notava que tinha uma vida privilegiada, reconheceu por bem fazer algumas deturpações.
Madalena dividia os seus dias em tarefas rotineiras, necessárias à sua sobrevivência, e a actividade de palhaço, ou melhor, como ela gostava de dizer, porque palhaço às vezes pode suar de forma depreciativa, oferecedora de sorrisos e ilusões.
Agarrou o gosto por esta actividade do gene do seu avô e por respeito, admiração e talvez por lhe ter acompanhado nos seus quotidianos números, durante toda a sua infância, tomou o sabor por esta arte e seguiu suas pisadas.
A primeira máxima que sempre guardou foi aquela repetida de forma infinita, pelo seu mestre de profissão.
- Não há palhaços, não há circo e o circo nunca pode acabar.
Esta máxima impediu-a muitas vezes de desistir, de procurar algo menos desgastante e talvez mais egoísta.
Mas o seu coração batia mais forte a cada sorriso sincero em seu redor e nessas horas esquecia tudo, tristeza, fadiga, incompreensões e deficitárias interpretações sobre o verdadeiro sentido dos seus números.
Contudo, desta vez, sentiu que lhe faltava a força e a convicção de outrora que a tirava de madrugada de uma cama quente, sem nenhum arrependimento e hesitação.
Os motivos seriam muitos e difíceis de enumerar de forma concisa, por isso, concentrou-se naquele que lhe parecia momentaneamente mais relevante.
A sua dificuldade em conseguir ilusões.
A preparação dos seus números escondia quase sempre aos espectadores, um trabalho preparatório, invisível, mas demasiado importante, para o sucesso das suas actuações.
Estar atenda, muito atenta às contradições do mundo e dos sentimentos, isolar-se das paixões frustradas e frivolidades comportamentais, para obter sempre sentimentos autênticos.
Porque um palhaço tem de ser sincero e sempre muito profundo, senão engana a arte e qualquer sorriso que lhe surja da zona dos aplausos, pode ser facilmente confundido por uma imitada aparência.
Nada pior que comprar uma alucinação falsificada e utiliza-la mais tarde para procurar construir para si uma outra fantasia verdadeira.
Por tudo isto sentir e viver, sempre foi muito cautelosa na sua conduta e dependente da criação de gáudio nos outros sem nada pedir para si, de tal forma assim foi que se esqueceu da sua própria vida e da sua felicidade.
E só agora, motivada por esta decisão descrente, compreendeu porque teria morrido o seu avô tão novo, com as entranhas afogadas por tanta bebida, tanta solidão e sem já graça nenhuma.
Guarda ainda hoje, todos os dias para si, a alegria dos seus olhos ainda jovens e as ultimas palavras que lhe dirigiu.
- Muito poucos são os que se apaixonam verdadeiramente por ser e pelos palhaços, ninguém atende e admira esta gente e este nosso mundo maravilhoso.
Depois, momentos antes de partir, devorado por dores insuportáveis, ainda teve a coragem e conseguiu fazer-lhe rir, contando uma deliciosa historieta sobre a beleza humana, a incapacidade de sonhar mundos distintos e o ridículo orgulho sisudo.
Esses que tudo têm menos o enorme coração, completamente visível e livre da curta blusa riscada, o nariz grande e vermelho, os enormes sapatos realçando os calções infantis e a cabeleira colorida a disfarçar ou acentuar a calvície, que dão um ar encantador aos palhaços, mas uma imagem ridícula para os auditórios, demasiado preocupados com o aprumo das suas estéticas faces e alinhadas vestimentas descoloridas.