sábado, fevereiro 26, 2005

“Do Divino espirro à torpe refrega entre guerreiros e meninos” (sonho segundo de Marcolina Dinis)

Valha-me Deus. Valha-nos Deus. A enfermidade voltou a atacar o Santo Padre e ao vê-lo deslizar sentado, trémulo, naquele veículo lunar, a caminho do hospital, sinto minhas todas as suas maleitas.
O Santo Padre foi atacado e sitiado por uma virose maligna, cuja menor das aparências é a sua gripe. Não obstante um calmeirão da guarda suíça me ter refreado o ímpeto de beijar o Papa, consegui – e não quero fugir ao rigor – ficar a uns sessenta metros do seu corpo e menos ainda da sua bênção, o suficiente ainda assim para que pudesse respirar o momento em que espirrou, absorvendo com que indizível volúpia o ar infecto em que se fez transportar uma boa amostra desses criminosos vírus que o torturam. Dentro destes pulmões passei, pois, a albergar a dor, a angústia e o tormento do Divino. E assim tornei a Portugal.
No dia seguinte a ter sonhado isto, o termómetro deu 39º,8 e o olhar vazio e purulento com que fitei o meu marido fizeram-no retornar àquela expressão tão perturbadora que só lhe conheço quando o Vitória de Setúbal perde. Desde esse dia e até ontem não mais parei de espirrar. Tenho-me sentido mal, mal, mal! Fechei o quiosque e refugiei-me em casa. Eis a razão por que não mais consegui escrever, sendo certo que os sonhos me fustigam, noite após noite, e em todo este tempo numa única e estranha direcção.
Desde o sonho em que me quedei enferma, um outro me assalta a cada vez que fecho os olhos e o sono chega. O sonho sobre a minha própria peste interior. Viajo pelas entranhas do meu corpo, pelo plasma em que batalhões de vírus instalados marcham, investem e se reagrupam. Uns morrem, alguns logo renascem. E ao renascer guerreiam, com o privilégio próprio dos bichos. E da parte celular do meu sangue já minado, o que lhes dá combate, o que me segura à vida? Gigantes? Dragões? Não. Meninos! Meninos às centenas, aos milhares, de calções de ganga e correias afiveladas, que lutando resistem e por eles vivo. Todavia, a refrega já vai longa e, para pior da minha desgraça, vão parecendo cansados. Procuram já ... - como é que hei-de dizer isto por forma a que me entendam?... um remanso.
A par disso, instalou-se mentalmente, desde esse sonho em que o Santo Padre me deu contágio, uma obsessão que, mais que a minha doença, vem prejudicando gravemente as relações com o meu marido. Insisto em chamar-lhe António Marto, quando na verdade o seu apelido é Casmarrinha. António dos Santos Casmarrinha, é e sempre foi o seu nome. Porquê então tal devaneio? As coisas já estavam péssimas quando lhe comuniquei que telefonara à Dona Dulce, do registo, a saber da viabilidade de eu receber, também, por matrimónio, esse novo apelido de Marto. O António partiu a garrafa de cerveja preta que estava a beber, e para evitar males piores saiu de casa e só voltou no dia seguinte. Eu apanhei os cacos, entre espirros, e perdoei-lhe. Não é fácil viver assim.
Felizmente que tudo se compôs. Ao saber da recaída do Santo Padre cuidei de ser arrastada por ele. Isso não aconteceu. Subitamente, arrebitei. No início da semana, deitando-me eu em vivo delírio, o nefando sonho não se voltou a repetir. Aliás, nessa noite dormi profundamente e não sonhei. Ao acordar não havia gripe. O cão lambeu-me as mãos quando lhe dei comida. A ternura matinal do pão ainda quente encheu-me a boca. O Goucha continua a fazer televisão todas as manhãs. Tudo está novamente no seu sítio. Aproveito, pois, para vos dar conta deste último sonho, num trato que só descurei por tolhida vontade, e emocionada vos digo quão calorosa é a vossa paciência.
Voltarei.
Marcolina Dinis Marto.