quarta-feira, março 16, 2005

“A obsessão de António Casmarrinha ou o polícia de pacotilha ferrado em xanax” (o sonho terceiro de Marcolina Dinis)

O António renovou a sua obsessão favorita. Chega-lhe, por regra, de quatro em quatro anos. Santana Lopes antecipou-a. Repete, num desgaste circular: «Ele vai pôr-me na rua! Ele vai pôr-me na rua! Ele vai pôr-me na rua!» E esquarteja-se pela casa com esse punhal-frase até cair vencido pelo cansaço, tal qual um cão a perseguir a cauda num rodopio insano.
O meu António não tem cauda, mas é um cobarde. Ele sabe que eu o sei e que nunca lho disse apenas porque não o quero dizer. O António não tem cara de cobarde, mas em matéria de coragem é um delicado e miserável cachorro, disponível e lesto no lamber de mãos ao sub-comissário Leonel. Nesse aspecto, o António não passa de um safa-trelas que mostra os dentes enquanto se urina.
Quem vai pôr na rua o António é o António Costa, o novo patrão das polícias. «É agora que ele nos tira da esquadra e nos mete no patrulhamento, vais ver!» - evacuava o meu marido pela casa. E tornava a gritar: «Ele vai pôr-me na rua!»
Saturada de tudo - o que inclui os meus próprios achaques (um qualificativo esquizofrénico que encontraram para me referirem os apontamentos de cansaço) – decidi auxiliá-lo: levei-o à acalmia em sono profundo com um copinho de água e alguns comprimidos xanax desfeitos, bem misturados e fora de prazo. Pouco espumou da boca. Retirei-lhe a farda no sofá e a custo levei-o para a cama, onde ainda dorme. Depois também eu me deitei, desacompanha, porém, de qualquer auxílio.
Despertei quando o fragor do tiro sobressaltou o cão, que se pôs a chiar, mendigando protecção. Os últimos segundos foram de uma alucinante sucessão de imagens: a orelha do António esfacelada, emurchecida, sangrando as vielas do bairro do Pelame; sete escravas doirando o pulso de uma cigana; campos líquidos de petróleo a arder; kosovares a saltarem de um navio de Trier antes de aportarem Trieste; um Pierrot de barro; Montálban em Bancoque antes de morrer; vasos de sardinheiras coloridas no quintal; o António, de borco, no asfalto roído pela chuva e um fiozinho de sangue a encalhar no seu sinal do pescoço em forma de rosa; o quarto crescente da lua.
Não voltei a dormir. Levantei-me e tomei banho. Fui abrir o quiosque, pois tinha uma encomenda de margaridas para o funeral do marido de uma cliente e apeteceu-me dedicar-me a essa tarefa com especial afecto.
Regressei a casa no final do dia. O meu marido ainda descansava. Deitei-me também. Houve um altura em que estando a sonhar o sonho se interrompeu e pressenti que o António estaria prestes a acordar. Preparei-lhe, então, nova poção de xanax e deixei escorrer o líquido pela sua boca entreaberta. Quero que descanse. Quero que se mantenha no dedilhado da máquina de escrever. Não o quero na rua. Não quero na rua o pobre cobarde.
Torno a deitar-me, exausta, e já perto do sono, no torvelinho da queda lenta, parece-me que um fiozinho a subir a parede, a ir pelo tecto, a contornar a base do candeeiro e logo a descer, numa linha recta, até à orelha do meu marido que deixa escapar um nada, um nadinha, um fiozinho vermelho, mas curto, quase imperceptível, sobre o branco da almofada.

Marcolina Dinis.