quarta-feira, junho 15, 2005

Este mundo.

O sol acabara de nascer, no dia que agora termina, este tinha sido o seu derradeiro sonho.
Para trás, tinha deixado tanta história que narrá-la aqui seria uma tarefa gigantesca e certamente fastidiosa.
Por isso, nesta noite distraíra-se a organizar algumas pequenas recordações, aquelas que falavam na esperança de um mundo novo, em que não existiriam grupos de indivíduos com interesses antagónicos, em que a voz de cada um era ouvida e considerada.
Depois lembrou a importância motivadora das fortes convicções, da reflexão profunda sobre os dias que nos rodeiam, das dedicações generosas, das disputas leais, dos seus defeitos e das suas virtudes, como qualquer outro Homem.
De que sozinho não se é nada, só crescemos em conjunto, que nada existe que valha a pena sem amor.
Ignorou neste momento tanta insipiência, daqueles que falam por falar, que nada explicam ou ouvem, nem querem explicar ou ouvir e articulam como se conhecessem profundamente todos os assuntos, que só têm certezas, censuram a dúvida e encarceram a utopia.
Que vendem a ilusão de felicidade á custa da arrogância e alguma recompensa, material e bem terrena, e às vezes até divina.
Tanta sobrançaria, tanta falta de intelecção, tanta certeza do que é o melhor e o pior para todos nós, que neste entretanto, morre de cinco em cinco segundos, uma criança de fome.
- É o destino senhores, é o destino. Que havemos de fazer.
Talvez só por isso valesse a pena ser um sonhador. Pensar e voltar a cogitar na forma de mudar tudo isto, de viver nesta inquietação permanente e neste profundo gueto das ideias.
Ele próprio, passadas tantas horas, nunca conseguira descobrir como o fazer, porque uma coisa é imaginar, outra é agir de forma justa para todos.
Neste ultimo isolamento, nesta termina reflexão lúcida, sentiu que hoje, como ontem, estaria pronto para recomeçar tudo de novo, criativamente, ao lado da ciência e da arte, ao lado da busca permanente de um mundo preferível e mais equitativo.
Que a vontade de aprender estava intacta, que a diversidade de ideias e opiniões é a única forma de se progredir, nada é eterno e intemporalmente certo.
Que o apreço pela vida humana é um assunto demasiado sério, para despender-mos tempo envolvidos na macabra teia, criada pela alucinação do fútil, distraídos e desconcentrados do dias.
Levantou-se lentamente e aproximou-se de uma velha caixa que guardava com carinho, desde tenra idade.
Abriu-a vagarosamente e verificou que passados tantos anos, ela se encontrava, como sempre suspeitara, escrupulosamente igual. A pequena moeda que ai escondera, apesar de ser sua ou se preferirmos, apesar de ele ser o plutocrata, não lhe tinha produzido qualquer abastança, estava ali quieta e só.
Assim sendo, acordou que tanto ontem como hoje, para se fabricar riqueza, é necessária força de trabalho.
Se será necessário, para se viver neste mundo, tamanhas desigualdades, perseveraria hoje como outrora, com essa dúvida para si.